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WW Baleia Branca: estratégia de enfrentamento à situações de auto-agressão

O primeiro caso de auto-agressão de adolescentes de Curitiba surgiu na Unidade Básica de Saúde (UBS) Osternack. A mãe de uma adolescente procurou o serviço porque a filha não queria mais ir à escola, estava se isolando, sempre com mangas compridas, já que escondia o desenho de uma baleia no braço, e estava participando de desafios perigosos em uma rede social. Nessa época, já havia rumores do jogo digital Baleia Azul. Os profissionais da UBS buscaram, então, mais informações entre si e na internet a respeito do assunto e também de como abordar os adolescentes. Todos ficaram bastante assustados e preocupados. Uma consulta médica foi feita e iniciou-se o tratamento medicamentoso ao mesmo tempo em que a psiquiatra do NASF foi contactada para acompanhamento do caso.

Na sequência, a equipe da UBS se deslocou até a escola onde a adolescente estudava para conversar sobre a situação e alertar a respeito da possibilidade de existência de outros casos (alguns profissionais já se conheciam devido à rede de proteção). A escola passou a observar seus alunos e a partir daí notificaram novos casos de auto-mutilação.

A enfermeira da UBS relata que o fato que a marcou naquele dia foi que, passando pela sala de espera da UBS, viu a mãe da adolescente aguardando e parou para cumprimentá-la. Foi então que ela se abriu sobre o que estava acontecendo. Conta com tristeza sobre o sofrimento da adolescente, que chorava e falava sobre seus sentimentos de rejeição, dificuldade de relacionamento e baixa autoestima.

O Centro de Operações Especiais da Polícia (COPE) foi acionado para investigar o caso, já que a adolescente seguia instruções recebidas por uma rede social e precisava cumprir os desafios. Foi realizada visita domiciliar em conjunto com a equipe da saúde e o celular apreendido para averiguação.

Poucos dias depois, foi identificado um aumento no número de atendimentos à tentativas de suicídio por adolescentes na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Sítio Cercado, Curitiba-PR. Quatro jovens entre 14 e 17 anos foram internadas devido a ingestão de medicamentos e duas delas apresentavam automutilação. A mídia estava alertando sobre o jogo digital baleia azul, composto por várias etapas, incluindo auto-mutilações, e cuja última etapa seria o suicídio.

 

A estratégia

Estes casos foram notificados ao Distrito Sanitário Bairro Novo, o qual iniciou um trabalho articulado, inicialmente através de um alerta realizado em reunião para todos os equipamentos de Saúde do referido distrito. Pensando em dar maior celeridade ao fluxo de informações e aos encaminhamentos, a supervisora do Distrito Sanitário Bairro Novo utilizou a estratégia de criação um grupo de WhatsApp, denominado “WWBaleia Branca” para fazer frente ao jogo Baleia Azul, considerando que a cor branca remete ao sentimento de paz. Esse grupo virtual foi composto por diversas categorias profissionais da saúde, como médicos (psiquiatra, saúde da família e urgência/emergência e pediatra do NASF), chefias de unidades de saúde, supervisora distrital, chefia de serviço da vigilância epidemiológica e coordenações de assistência e vigilância em saúde do Distrito Sanitário Bairro Novo. Todos os membros eram também administradores do grupo, podendo assim incluir novos profissionais, dependendo da necessidade, fato que foi ocorrendo conforme aumentava o número de episódios. Dessa forma, discussões sobre os casos e alguns encaminhamentos foram efetuados digitalmente, em rede multiprofissional resolutiva, e todos os pacientes foram acolhidos por profissionais de sua Unidade de Saúde.

 

O Bairro Novo

A regional Bairro Novo recebeu nos anos 90 e 2000 grandes loteamentos voltados à habitação popular e apresenta uma população de 145.433 habitantes. A população, na grande maioria jovem e adulta, apresenta taxa de alfabetização inferior à do município. Considerando dados de 2010, o rendimento médio na regional foi de aproximadamente 2.000 reais por domicílio, menor valor entre as regionais de Curitiba (Prefeitura Municipal de Curitiba, 2014).

Trata-se de um território com certa vulnerabilidade social, com a maioria dos moradores sendo SUS-dependentes. O Distrito Sanitário Bairro Novo abrange 12 Unidades Municipais de Saúde, todas Estratégia Saúde da Família, uma UPA, um Centro de Atendimento Psicosocial (CAPS) para dependentes de álcool e drogas e um Centro Médico Comunitário (hospital e maternidade).

 

A inovação

Ficou estabelecido um fluxo de acolhimento ao paciente de auto-agressão que acessava a UPA, em que o caso era compartilhado no grupo de WhatsApp e após a saída deste da Unidade, a psiquiatra já se prontificava a atendê-lo preferencialmente no mesmo dia da alta, exceto nos casos em que o paciente já era encaminhado imediatamente para o CAPS com indicação de internação.

Após este atendimento emergencial na unidade de saúde com a psiquiatra do NASF, o paciente era encaminhado para outros órgãos, como atendimento ambulatorial de psiquiatria/psicologia ou atendimento semanal no CAPS, conforme avaliação. As Unidades de Saúde monitoravam o paciente durante todo o período de acompanhamento nestes outros órgãos (verificando através dos psicólogos dos NASF se houve adesão ao tratamento e caso não houvesse, realizando busca ativa) e após a alta, durante o período de 6 a 12 meses, conforme a gravidade do caso. Desde o início desse trabalho, diversos adolescentes mudaram-se para outros municípios, dificultando o acompanhamento de alguns casos.

Trabalhar com as temáticas da automutilação e do suicídio é delicado também para os profissionais de saúde envolvidos, com o desgaste da equipe em atender um adolescente em situação de urgência e em conseguir acolher o caso junto à família, que quase sempre se apresentava desestruturada.

Nas situações acompanhadas, o adolescente era visto como um sujeito em busca de amor/aceitação, com sofrimentos muitas vezes ocasionados pela separação dos pais, por dificuldades de relacionamento na escola ou por conflitos geracionais. A unidade de saúde tentou envolver as famílias para que reconheçam e vivenciem as necessidades dos adolescentes.

Praticou-se e percebeu-se como um sistema em rede pode funcionar de forma intensa e rápida se os envolvidos são interessados e resolutivos. Um exemplo foi a atuação da enfermeira da UBS e da Psiquiatra do NASF que foram juntas à casa da paciente, bem como no caso em que o CAPS infantil prestou apoio diário por telefone em determinados casos, a partir do entendimento de que somos mais fortes em rede, de que diversas pessoas em lugares distantes conseguem formar um movimento de apoio muito próximo as pessoas que realmente necessitaram.

O envolvimento de diversos outros órgãos e secretarias fez-se necessário durante todo este processo, sobretudo o Conselho Tutelar, a Fundação de Ação Social e a Secretaria de Educação.

Desde o início, a ação extremamente rápida do Distrito Sanitário Bairro Novo em alertar todos os equipamentos de saúde, além de outros órgãos, propiciou agilidade na identificação e condução de todos os casos, de forma integrada e multiprofissional (médicos, profissionais de enfermagem, da rede de proteção e da vigilância epidemiológica, chefias e agentes comunitários de saúde) visando a orientação, o acolhimento, a prevenção e o tratamento aos pacientes.

Dos 10 distritos sanitários existentes em Curitiba, os três que fazem divisa com o Bairro Novo foram incluídos no grupo, pelo fato de rotineiramente a UPA do território prestar atendimento aos usuários das localidades vizinhas. Além disso, alguns membros da coordenação central do Município também integram o grupo.

 

Os resultados

No ano de 2017 (abril-dezembro), foram monitorados 46 casos de adolescentes que praticaram auto-agressão, sendo 35 meninas e 11 meninos. Em 2018, foram 34 casos (janeiro-setembro); destes, 29 são meninas, evidenciando mais uma vez uma maior incidência da auto-agressão no gênero feminino. Com relação à fonte notificadora, verificamos uma diferença entre os anos de 2017 e 2018, sendo que no primeiro, 37% dos casos foram notificados por unidades de saúde e 37% pela UPA, seguido de 21% de notificações realizadas pelas escolas. Já no segundo ano, 69% das notificações foram realizadas pela UPA, fato que nos leva a refletir sobre a aproximação permanente com os parceiros de forma a manter o trabalho intersetorial sempre ativo.

A intersetorialidade é fundamental para o sucesso no combate à auto-agressão.

Em 2018 o entrosamento e a sensibilidade dos vários setores envolvidos havia aumentado, entretanto, sente-se ainda que as ações de prevenção, além das de assistência, recaem sobre a saúde. Precisamos ainda caminhar no sentido de que os parceiros estejam preparados para situações preventivas e até de acolhimento.

Todos os casos identificados e acompanhados neste projeto receberam atendimento, inclusive psiquiátrico, e nenhum deles terminou efetivamente em suicídio. Aproximadamente um quarto dos pacientes atendidos em 2017 verbalizaram relação ou apresentavam mutilações características ao jogo baleia azul.

A utilização de uma ferramenta de mídia digital para agilizar todo o processo, justamente o mesmo tipo de ferramenta que pode levar um adolescente a atentar contra a própria vida, como no jogo da baleia azul, foi o diferencial e também fato fundamental durante este período conturbado. O grupo de WhatsApp “WWWBaleia Branca” continua em funcionamento.

Durante todo este processo de trabalho, diversas lições foram aprendidas, dentre elas que o suicídio é uma realidade, presente em todas as culturas, exigindo que os profissionais da saúde prestem atenção aos sinais e sintomas, independentemente da queixa do paciente, como forma de prevenção. Devemos também estar atentos às novas “ciladas” que podem aparecer através das mídias digitais e arrastar os jovens para a auto-agressão. Ressalta-se, além disso, a importância dos profissionais não julgarem o adolescente, agirem sem pré-conceitos, e atenderem todos os casos como graves. Essa postura ética resulta em ações que salvam vidas.

 

“ Sexta-feira à tarde, a mãe levou a filha adolescente na unidade de saúde. A menina entrou na sala de atendimento chorando muito, escondida entre os cabelos. Disse que iria se matar (se jogando da passarela ou pulando da janela do prédio onde mora). Fala que a vida não é para ela, que quer ficar em baixo da terra.”

Relato da enfermeira D. O. L. (UMS Osternack).

 

“ A mãe procurou a unidade de saúde desesperada pois a filha não saía do quarto escuro e não queria falar com ninguém. Disse que queria morrer e parou de se alimentar. Quando a equipe de saúde chegou na casa (psiquiatra, enfermeira e chefe do posto), encontraram a adolescente bastante emagrecida, em péssimas condições de higiene.”

Relato de C. M. L. (Enfermeira e ASL Parigot de Souza).

 

“Depois do ocorrido a equipe está mais sensível aos sinais de alerta nos adolescentes e monitora melhor os casos. Toda a equipe está envolvida.”

  1. D. R. (Enfermeira e ASL Osternack)

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