Fora da turma que um dia pugnou pela chamada Reforma Sanitária brasileira, aquela dos anos 80, talvez pouca gente conheça Carlos Gentile de Mello. Ele era um médico de carreira do antigo Inamps (antes INPS) que se destacou pela sua visão abrangente da saúde, se esmerando, particularmente, na crítica à irracionalidade do sistema de saúde brasileiro, dividido entre a “saúde pública” pobre e abandonada e a “saúde previdenciária”, bem mais abonada, mas estupidamente gastadeira de recursos, além alcance não universalizado.

Ela era figura carimbada nos anos 70 e 80. Publicou alguns livros e se destacou no combate pela democratização da saúde, a partir das trincheiras da grande imprensa, que não raramente abria espaço para ele. Além disso, tinha uma personalidade marcante, muito comunicativo e extremamente irônico, sem deixar de ser didático, em suas intervenções públicas. Eu o conheci no Rio de Janeiro, quando fui fazer meu curso de especialização na Escola Nacional de Saúde Pública. Em tal ambiente, ele, ao lado de Sérgio Arouca, Eduardo Costa, Hésio Cordeiro (este na UERJ), além de outros, eram as grandes estrelas das novas propostas que surgiam à esquerda do establishment inampsiano e governista em geral.

Gentile pode ser citado, sem nenhum favor, como um dos intelectuais da saúde que mais contribuíram para a utopia da Reforma Sanitária e da criação do SUS, embora para fazer justiça a ele e outros, seria de bom tom perceber que o sistema que sonharam certamente era bastante diferente daquilo que a realidade nacional engendrou.

Gentile estava sempre disponível quando se tratava da cruzada sanitária reformista. Assim, resolvi convidá-lo, em meados de 1981, para fazer uma palestra em Uberlândia, não só para meus colegas e alunos da Universidade, como para o público em geral.

Eu já era meio calejado com eventos públicos na cidade, principalmente se eram de teor político (ou também crítico, como era o caso). Difícil, quase sempre, reunir um bom público. E bem no dia de Gentile falar desabou, no final da tarde, um temporal memorável. Mas ele só tinha um dia conosco e, assim, tivemos que tocar o projeto em frente. Esperando a chuva passar, consegui, com uma hora de atraso, reunir uma dúzia de abnegados e amigos.

Como o auditório reservado para o evento era o da Sociedade Médica, de localização central, achamos que o público seria maior, mas isso não aconteceu. Mas, em todo caso, tivemos a “honra” de contar com a presença do presidente da entidade. Coloco tal palavra entre aspas por motivos que logo se verá…

O tal presidente era um daqueles médicos visceralmente liberais, dono de hospital, famoso por suas intervenções desabridas e suas tiradas fora de hora. Era o que poderia ser chamado, nos termos de hoje, de um completo e acabado sem-noção. E ainda chegou vindo de alguma mesa de bar, coisa que seu hálito e seus gestos denotavam. Pelo que deu a perceber quando finalmente abriu a boca, tendo custado a fazê-lo por ter chegado atrasado, talvez tentando se inteirar do assunto em pauta, o presidente tinha captado só um detalhe relativo à palestra: Gentile era do Inamps…

E o sem-noção veio com tudo. Iniciou uma arenga interminável, na qual deplorava o valor das US e das GIH, os atrasos de pagamento, as glosas de contas hospitalares.

Detalhe importante: Gentile era um inimigo feroz do processo de pagamento baseado nas tais “US” e “GIH”, na verdade um tipo de pagamento por serviço prestado, que já naquela época havia sido superado em todo o mundo, por se constitui em terrível fonte de corrupção, além de multiplicador artificial de despesas com saúde. Vêm daí as famosas histórias relativas a apêndices operados duas vezes, amígdalas quatro, cesarianas em homens, além de cirurgias de próstata em mulheres.

Gentile era tão visceral em sua crítica a tal sistema de pagamento, que uma brincadeira corrente na ocasião, entre seus amigos, era a de que ela havia gravado em sua secretária eletrônica a seguinte mensagem, seu verdadeiro mantra: aqui fala Carlos Gentile de Mello; deixe seu recado e não se esqueça: pagamentos por US e GIH são fontes inesgotáveis de corrupção e desvio!

Mas o palestrante tentava acalmar o presidente: mas meu amigo, eu também sou contra isso tudo! Eu defendo outro estado de coisas… E o sem-noção retrucava: mas se o senhor é do Inamps tem que esclarecer, porque aqui nós estamos quase morrendo de fome por falta de pagamento…

Para finalizar, não custa revelar que, naquele tempo, a agência do Inamps em Uberlândia tinha cerca de quinze ou dezesseis médicos auditores de contas hospitalares. Desses, apenas dois não eram donos ou sócios dos hospitais locais. Sem comentários…

Depois dessa desisti de me meter em tais aventuras.

Flavio Goulart, o autor, é professor universitário aposentado (Universidade de Brasília) e foi Secretário Municipal de Saúde em Uberlândia-MG em duas ocasiões, além de ter sido membro (vice-presidente) da primeira diretoria do Conasems.

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