Arte na Espera: tecendo uma rede de acolhimento (UFMG)

UFMG/Hospital das Clínicas – ARTE na ESPERA: tecendo uma rede de acolhimento para o adolescente e para a família

Cristiane de Freitas Cunha, médica; Olívia Loureiro Viana, graduanda em psicologia e artes plásticas; Patrícia Regina Guimarães, médica; Rejane Reis, médica; Rosimery Iannarelli, assistente social; Suzana Tayer do Amaral, médica; Tânia Maria Gomes, assistente social; Thereza Chistina Portes Ribeiro de Oliveira, artista plástica.

O projeto Arte na Espera constitui uma das atividades do Núcleo de Saúde do Adolescente do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) em parceria com o Instituto Undió, desde agosto de 2013. O Instituto Undió é uma organização sem fins lucrativos, cuja proposta é criar oportunidades por meio da arte, da educação e da cultura, para que jovens, em condição de vulnerabilidade social, suplantem os obstáculos e escolham seus próprios caminhos.

A medicina, com seu arsenal semiológico, almeja separar o joio do trigo. Os diagnósticos, cadavez mais, prescindem do doente, dos sintomas, da clínica. Nesse Núcleo, recolhemos o joio. É uma clínica do “resto”, que recebe encaminhamentos de adolescentes “completamente descontrolados”, que não aderem ao tratamento, que fracassam na escola, que se recusam a comer, que se cortam, que se drogam, que transgridem a lei. A equipe interdisciplinar constrói a rede que abriga o joio, aquilo que escapa às práticas protocolares, regidas pela objetividade e pela lógica da avaliação.

O atendimento aos adolescentes e familiares é feito por equipe interdisciplinar, às sextas-feiras pela manhã e ocupa todo o segundo andar do Ambulatório São Vicente, anexo do Hospital das Clínicas da UFMG e que enquanto aguardam atendimento médico na sala de espera, desenvolvem atividades de arte nesse espaço transformando o ambulatório em um ambiente que contempla a saúde, a criatividade e o pensamento crítico.

Há a construção de uma interface entre arte e saúde, o que propicia um acolhimento vivo de adolescentes, seus familiares e acompanhantes, que se apropriam desse espaço e estabelecem uma interlocução com a equipe interdisciplinar. A equipe tece essa construção do caso clínico: os saberes se entrelaçam, mas não se completam; um espaço central é o saber do próprio adolescente, especialista de si mesmo.

Assim, essa proposta de atenção proporciona um acolhimento através da arte para o adolescente e sua família que se sente valorizada e confiante, estreitando laços de amizade e pertencimento. Torna-se comum as mães se oferecerem para ensinar às companheiras pontos de bordado ou crochê, o que possibilita trocas intermináveis e duradouras. A tarefa é bordar uma toalha, que é usada em um café coletivo. Ele marca o encerramento das atividades de cada semestre, e é seguido por uma roda de conversa, na qual os adolescentes, familiares e a equipe do projeto discutem o trabalho.

RESULTADOS

Arte na Espera é um projeto que enlaça a extensão, a pesquisa e o ensino, sustentados pelos referenciais da arte, da saúde, da psicanálise. Os alunos da Graduação, da Especialização, da Residência e do Mestrado Profissional têm a oportunidade de vivenciar uma interdisciplinaridade, que se constrói em torno de cada caso. Trata-se de uma prática clínica, artesanal, que visa o detalhe do caso, a subjetividade do paciente, de cada familiar. Mas a discussão contempla também o cenário: o adolescente, a família, o entorno, a cidade. Há um acolhimento vivo de cada adolescente e de cada familiar, que se traduz na oferta de uma escuta interessada no que o outro tem a dizer, oferta de um lugar de pertencimento, transitório para alguns que, a partir desse ponto, se inserem em outros espaços da cidade.

Um adolescente deficiente auditivo que vivia restrito na sua casa se torna um artista e se apropria da cidade construindo seu próprio circuito cultural: visita exposições, mostras de performances, eventos em praças públicas e participa de mesa redonda em Seminários representando o Projeto Arte na Espera.

Outro adolescente, originário de um Centro de Internação, chegou ao ambulatório bastante arredio. Ao longo das semanas, começou a se integrar ao grupo e a participar das atividades e, a partir da interação com os outros adolescentes e com as estagiárias da arte, passou a participar das dinâmicas coletivas. Desenhava, repetidas vezes, seu nome derretido sobre um muro de tijolos.

No decorrer das oficinas, o muro foi diminuindo e dando espaço ao nome que crescia e ganhava cor, além de também dar lugar a novos desenhos. Enquanto isso, diminuíram as barreiras desse adolescente na relação com a equipe clínica e com o agente socioeducativo que o acompanhava ao ambulatório. Esse último relatou os efeitos do projeto: foi aqui que me tornei um agente socioeducativo.

INOVAÇÃO

A grande inovação do Arte na Espera é a oportunidade de usar a arte junto a uma equipe interdisciplinar formada por médicos, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais, o que enriquece e facilita o trabalho e a construção de adolescentes e suas famílias, que se apropriam do espaço de saúde. Essas oportunidades promovem o que a equipe nomeia como janela da escuta, que amplia os horizontes do atendimento e torna o projeto tão grandioso na sua singularidade.

O projeto se mostra ainda inovador por propor a interlocução entre saúde, subjetividade e cultura no espaço da saúde e, daí na cidade. A partir dele, adolescentes que viviam restritos no seu microterritório passaram a circular pelos circuitos de arte da cidade, criaram páginas sobre arte e cultura nas redes sociais, construindo um percurso de paciente a protagonista. Trata-se de um trabalho árduo, pois os casos são encaminhados são muito complexos, mas exitoso, pois um efeito da experiência é o de insuflar vida no cotidiano do Ambulatório: a espera, antes marcada pelo tédio, tornou-se convívio.

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