Transformações na educação médica – desafio do serviço como escola

O novo perfil da educação médica no Brasil, resultado das transformações decorrentes da implantação do Programa Mais Médicos, em 2013, e das novas Diretrizes Curriculares Nacionais, em 2014, foi tema do segundo encontro da reunião técnica “Acesso e qualidade a cuidados e serviços de saúde: desafios para a gestão dos recursos humanos em saúde”, promovido dia 11 de outubro pela Unidade Técnica de Capacidades Humanas para a Saúde da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) em coordenação com a Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde.A coordenadora da Unidade Técnica de Capacidades Humanas para a Saúde da Opas, Mónica Padilla, apresentou o propósito da reunião: “Depois de nos debruçarmos sobre as oportunidades e os desafios para a ampliação do escopo de práticas de profissionais de saúde, em nosso primeiro encontro, hoje abordaremos a formação em Medicina no Brasil, reconhecendo o desafio de oferecer uma formação profissional voltada às necessidades da população que procura os serviços públicos de saúde”.

O coordenador do Programa Mais Médicos na Opas, Gabriel Vivas, destacou o legado da iniciativa. “O Programa Mais Médicos é a mais importante política pública de saúde do Brasil, porque responde ao principal problema da Atenção Básica: o baixo contingente de médicos. Além do provimento emergencial, a formação de novos médicos já é uma realidade. Desde 2013, 30 novas escolas federais foram implantadas no Brasil, a maioria em regiões até então sem acesso à formação médica”, afirmou.

Participaram do encontro, representantes do Ministério da Saúde, do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) e de pesquisadores de diferentes universidades. A agenda, que teve início dia 10 de outubro com o debate sobre ampliação do escopo de práticas dos profissionais que atuam na Atenção Primária à Saúde (saiba mais), se estendeu até 22 de outubro, com a discussão sobre o mercado da educação na área da saúde (acesse aqui).

A pesquisadora Eliana Cyrino, supervisora do Centro de Saúde Escola de Botucatu, da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), apresentou uma análise histórica da formação médica no Brasil e no mundo e destacou que, atualmente, o campo passa por um novo ciclo de transformações. “As escolas médicas já passaram por diferentes reformulações. Em 1910, a Reforma Flexner disparou uma mudança paradigmática ao trazer as escolas médicas para as universidades; mais tarde, a modalidade de ensino baseado em problemas veio contribuir para uma educação médica menos fragmentada, organizada em núcleos temáticos. Hoje, século 21, o desafio é conectar a formação médica aos serviços públicos de saúde, preparando os alunos para a realidade dos sistemas de saúde”, apontou Eliana.

Para a pesquisadora, que coordenou o mapeamento de 30 escolas médicas criadas após a implantação do Programa Mais Médicos, o modelo ideal de formação médica para o Brasil seria o de uma escola de Medicina voltada para o Sistema Único de Saúde (SUS), pautada por seus princípios doutrinários, com o conceito de integralidade como eixo condutor. “O serviço é a grande escola para os nossos profissionais da saúde. O aluno precisa se sentir dentro da unidade básica, participante daquele território. Precisa conhecer as dificuldades e assumir responsabilidades para melhorar a atenção à saúde naquela unidade”, afirmou.

O percurso e os resultados preliminares da pesquisa “Avaliação do desenvolvimento da dimensão ‘Formação para o SUS’ no Programa Mais Médicos: mapeamento das ações de expansão de vagas, da criação de novos cursos e da implantação das Diretrizes Curriculares Nacionais em escolas médicas federais brasileiras” foram apresentados pela enfermeira Mara De Sordi, professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

O estudo, fruto de uma carta acordo entre Opas e Ministério da Saúde, analisou a situação atual de 30 escolas médicas públicas e federais criadas após a implantação do Programa Mais Médicos, que já estão integradas aos serviços públicos de saúde de seus territórios. Além da análise dos projetos pedagógicos, os pesquisadores realizaram visitas às instituições para conhecer de perto o novo contexto da educação médica brasileira, por meio das experiências de alunos, docentes e profissionais de saúde. “Nós sabemos que, em geral, mudanças de diretrizes são feitas de fora para dentro. E, por isso, estávamos interessados em avaliar se o que estava escrito na lei correspondia à realidade. Isso só foi possível por meio do diálogo e da parceria com as instituições, na perspectiva de que processos avaliativos sempre ajudam as escolas”, contou a pesquisadora.

“O estudo ainda está em fase de conclusão, mas os resultados preliminares já nos permitem afirmar que o Brasil conseguiu cumprir o objetivo de abrir escolas médicas públicas e federais em áreas remotas. Agora, vamos observar esse processo, apreender sua riqueza, mapear como as escolas estão dando conta de seus desafio e em que aspectos precisam de apoio. A proposta é levar essas questões para o Ministério da Saúde, o Ministério da Educação e a Opas, a fim de promover esforços conjuntos para a consolidação e o aprimoramento dessas escolas”, resumiu Marta.

Como resultado do mapeamento das novas escolas médicas públicas e federais do Brasil, a pesquisadora também destacou a atuação dos alunos no SUS como estratégia mobilizadora de mudanças na prática médica. “Em muitos casos, os alunos ainda não reconheciam plenamente a importância da mudança paradigmática em curso desde a validação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais. Percebemos em suas falas como eles foram construindo ao longo do tempo o sentido de estar naquele lugar, naquele curso, com aquela proposta. Alguns estudantes até revelaram uma certa preocupação em participar de um modelo de escola médica diferente do tradicional. Mas observamos que, à medida em que eles começam a criar vínculos com o serviço de saúde, a perceber docentes, profissionais e colegas como pessoas que se reconhecem preocupadas em atender às necessidades de saúde da população, eles ganham autoestima e pertencimento”, pontuou.

– Saiba mais sobre outros dois encontros, realizados nos dias 10 e 22 de outubro, que abordaram a ampliação do escopo de práticas na APS e a regulação das profissões de saúde e as tendências do mercado brasileiro de educação na área da saúde.

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