Em uma sala de reunião virtual, sanitaristas discutiram nesta quarta-feira (02/04) sobre possíveis medidas a serem adotadas no Brasil para proteger o sistema e os profissionais de saúde frente à proliferação da Covid-19 no país. A conversa foi coordenada pelo médico especialista em Medicina de Família e Comunidade, Daniel Soranz, pelo médico e coordenador da Unidade Técnica de Sistemas e Serviços de Saúde da Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil (Opas), Renato Tasca, e pelo médico e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Adriano Massuda, com a presença de profissionais de saúde, sanitaristas, gestores e outros atores do Sistema Único de Saúde (SUS).

O encontro abordou quatro temas principais: o desafio da Atenção Primária à Saúde (APS) para não virar fonte de contágio da doença, a aquisição e a distribuição de insumos estratégicos para os serviços de saúde, os novos medicamentos em fase de testes clínicos e a notificação de casos e óbitos.

O tema que dominou a maior parte da conversa foi sobre o papel da APS no enfrentamento da Covid-19, o manejo dos usuários com suspeita de Covid-19 nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e a garantia de cuidado assistencial para os grupos mais vulneráveis. A experiência internacional foi apresentada pelo coordenador da OPAS, Renato Tasca, com base em informações repassadas por colegas da Itália e por leituras de documentos e pesquisas acadêmicas. Tasca explicou que a Itália reorganizou os serviços oferecidos pela APS neste momento de enfrentamento da pandemia de Covid-19 para evitar a transmissão da doença por meio dos profissionais de saúde da APS.

“A APS na Itália está operando à distância, ou seja, não há atendimento nos consultórios e para alguns pacientes, os médicos fazem atendimento domiciliar. Neste momento, na Itália, a APS não é porta de entrada do sistema de saúde para Covid-19. A Itália optou em restringir o contato físico entre o profissional de saúde das APS e os usuários e está utilizando ferramentas da telemedicina e atendimento domiciliar. O Samu é quem gerencia o transporte dos pacientes doentes para os hospitais”, explicou Tasca.

Daniel Soranz também se mostrou preocupado com a organização da APS no Brasil para o enfrentamento da pandemia de Covid-19. Ele defende que, em grandes centros urbanos e nas comunidades mais vulneráveis, as unidades de saúde sejam separadas para atender paciente com suspeita de Covid-19 dos não suspeitos, para evitar o contágio da doença e citou como exemplos de experiências dos municípios de Campo Grande, Maricá, Teresópolis. “É fundamental ter polos voltados para a assistência de pacientes de Covid-19, separando os profissionais que atendem os pacientes infectados para que estas pessoas não sejam transmissoras da doença”, explica Soranz.

Para Massuda, a experiência da Itália é interessante para evitar o contágio na APS e em potencializar o atendimento nos hospitais. Ele acredita que há uma maturidade nas decisões do governo federal do Brasil para a área de vigilância epidemiológica da Covid-19 e defende mais protagonismo do Ministério da Saúde para a adoção de medidas da assistência à saúde, que para ele devem ser subsidiadas pelas análises epidemiológicas. “O Governo federal precisa ser proativo na organização da rede assistencial, estabelecendo fluxos e serviços para cenários diferentes, inclusive, com medidas de redução de danos para o sistema e para a população”, explica Massuda.

“Os hospitais de campanha devem ser a última opção dos governos, antes de adotá-los os governos federal, estadual e municipal precisam, com urgência, habilitar leitos já disponíveis no sistema, reorganizar o atendimento e funções dos hospitais que estão na rede, como também criar leitos em hotéis, tudo isto antes de construir hospitais de campanha”, explica Massuda.

Tasca disse que, na Itália, o governo regulou o setor para que enquanto os hospitais públicos estão tratando dos pacientes com Covid-19, os hospitais particulares tratam os outros pacientes com doenças agudas crônicas. Para ele, essa estratégia pode ser adotada no Brasil, remanejando pacientes para liberar leitos ociosos para o tratamento da Covid-19 .

A pesquisadora Ligia Giovanella, da Rede de Pesquisa em APS da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), alertou sobre a necessidade de proteger os profissionais de saúde da APS da Covid-19 para que eles não sejam fontes de contágio, porém reforçou a contribuição da APS no Brasil, especialmente, devido a sua capilaridade na família e na comunidade. “Nós temos que ter criatividade para acionar os efeitos positivos da APS, especialmente, os atributos de orientação familiar e comunitária, o seu caráter territorial, sem que as unidades de saúde se transformem em fonte de contágio. A APS atua sob importantes eixos, como a vigilância epidemiológica,  a ação comunitária que apoia a população mais vulnerável e os usuários com comorbidades, a ação territorial, entre outros, por isso defendemos que a APS deve continuar atendendo a sua população e pensar em novas estratégias como a de teletrabalho, à distância também”, defendeu Ligia Giovanella.

Giovanella citou também que a Abrasco entregou uma a carta ao Ministro da Saúde, ontem (01/04), para alertar sobre possível situação de fonte de contágio da Covid-19 por meio dos profissionais de saúde da APS porém defende o protagonismo do primeiro nível da atenção no cuidado dos usuários.

Insumos estratégicos

Para o médico Adriano Massuda, há uma carência global para aquisição dos insumos estratégicos como, Equipamentos de Proteção Individual (EPI), testes rápidos e PCR, ventiladores e outros, mas defende a ação regulatória do Estado para a aquisição e distribuição destes insumos no país. “O Ministério da Saúde tem que avocar para si a responsabilidade de compra desses insumos estratégicos e definir uma distribuição dentro de uma lógica da vigilância epidemiológica”, defende Massuda. Para Tasca, a restrição aos insumos justifica a reorganização dos serviços da APS para não expor os profissionais de saúde e para evitar o contágio da doença.

A sanitarista Ana Maria Tristão informou que o Centers for Disease Control and Prevent (CDC) (https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/hcp/ppe-strategy/decontamination-reuse-respirators.html) autorizou a descontaminação das máscaras N95 devido a dificuldade na compra deste equipamento de proteção para os profissionais de saúde. O Ministério da Saúde ainda não se posicionou quanto ao tema, mas segundo a sanitarista a possibilidade está em discussão.

Notificação de casos e óbitos

O sanitarista Daniel Soranz alertou sobre o problema da subnotificação de óbitos que necessita do resultado do teste PCR  para Covid-19. Para ele, há uma demora no resultado do teste que pode favorecer a subnotificação, minimizando a situação.

Massuda acredita que falta uma definição mais clara por parte do Ministério da Saúde para o registro de óbito por Covid-19. “Acho que não deve aguardar a confirmação laboratorial se já há um diagnóstico clínico que atesta o óbito por Covid-19. Devemos registrar casos mesmo sem a confirmação laboratorial”, diz Massuda.

O médico italiano que presta consultoria no Brasil, Artigo Martino, concorda com proposta de Massuda e diz que os médicos já sabem diagnosticar a doença e por isso a notificação de óbitos deveria seguir o diagnóstico clínico para Covid-19. “Também temos que levar em consideração que vários testes de Covid-19 deram falsos negativos. Infelizmente a única medida certa são os cadáveres, que não vai ter como mentir”, ressalta.

Sobre a questão de medicamentos para tratamento da Covid-19 em teste no mundo, os sanitaristas concordam que em breve terão uma forte evidência sobre sua eficácia, mas que por enquanto não é hora de especulação.

 

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