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Programa Academia Carioca – Grupo de Karate para crianças e adolescentes

Em 2009, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro implantou o Programa Academia Carioca com o propósito de incluir entre os serviços de saúde a oferta de atividade física regular, orientada por profissional de educação física integrado às equipes de Saúde da Família, na ampliação da coordenação do cuidado e como estratégia de promoção da saúde.

A experiência com o Karate ocorre no território da Clínica da Família Padre John Cribbin, localizada no bairro de Realengo, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Uma área com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,803 (89º entre 126 bairros) e expressiva população de jovens e adolescentes com sobrepeso e a obesidade prevalente em 10% (Pesquisa de Orçamentos Familiares – POF 2008-2009; IBGE, 2010). Somado a isso, notamos uma grande ociosidade do tempo livre dos adolescentes do território, assim como uma carência de atividades físicas e culturais voltadas para o público jovem, como oficinas de teatro, música, escolinhas de futebol e até mesmo outras artes marciais, como a Capoeira. Algumas dessas atividades são oferecidas em territórios próximos, porém, estavam ausentes na região da Clínica da Família Padre John Cribbin.

A partir do trabalho realizado na Unidade, pensamos em um grupo de crianças e adolescentes no qual o Karate fosse a atividade principal, tendo em vista a experiência pessoal do profissional de Educação Física do Programa Academia Carioca com esta arte marcial, assim como todos os benefícios e vantagens dessa prática para o comportamento, relações sociais e saúde.

O grupo começou com as filhos e filhos dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) que voltavam da escola e ficavam de uma a duas horas circulando pelos espaços na Unidade, aguardando seus pais e mães, que trabalhavam ali, terminarem o expediente de trabalho. Observando tal situação, iniciamos um grupo com aulas ministradas com 5 crianças com idade entre 7 e 8 anos. Participaram desse primeiro momento o profissional de Educação Física com o auxílio de dois ACS.

O trabalho inicial com esse pequeno grupo funcionou como teste para a estruturação da atividade de fato, pois foi possível alinhar o melhor período, compatível com o horário escolar do público que pretendíamos atender; a organização da agenda do local que pretendíamos utilizar (auditório da Unidade de Saúde chamado de Centro de Culturas e Ideias da Unidade – CCI); o conteúdo a ser trabalhado, ou seja, qual seria a melhor metodologia a ser utilizada, a abordagem mais efetiva que seriam empregadas nas aulas. Enfim, toda a organização teve como base o retorno recebido dos primeiros alunos e seus responsáveis. A partir dessa etapa inicial, com posterior avaliação, estabeleceu-se a estrutura da atividade com base no conceito e princípios do Programa Academia Carioca, ou seja, calcada na sincronia com os problemas epidemiológicos e demais demandas sanitárias. Senso assim, com base na sistematização de ações efetivas por meio de uma perspectiva comunicativa (CARDOSO & GUIMARÃES, 2016). Dessa forma, consolidando sua ampliação para as demais crianças e jovens do território. Entretanto, a atividade adotou como característica a participação dos alunos na elaboração do planejamento das aulas, abertas então a sugestões de alunos e responsáveis, fossem elas específicas do Karate ou não.

Cerca de um mês após o seu início, nas reuniões entre a equipe técnica, NASF e ACS, começamos a estimular outros profissionais a observarem jovens ociosos pelo território. A partir de então, os jovens passaram a ser convidados a conhecerem e participar do Grupo de Karate do Programa Academia Carioca na Clínica da Família Padre John Cribbin. O grupo vem crescendo cada vez mais e até então é a única atividade voltada para crianças, jovens e adolescentes da unidade. Inclusive para beneficiários do Bolsa Família e Cartão Família Carioca, em condição de vulnerabilidade social e econômica.

 

Falando um pouco do grupo em si

O grupo de Karate do Programa Academia Carioca é uma ferramenta atraente para o público infantil/jovem, e é uma estratégia eficaz para apresentar a Unidade de Saúde a esse público, que na maioria das vezes só a procura em caso de doença.

O grupo formado há quase 6 anos conta com alunos que estão desde o início, participando regularmente do cotidiano da UBS em contato com os serviços e demais profissionais. O que fortalece o vínculo entre os jovens e toda a sua família com o Sistema de Saúde. O contato com o ambiente da saúde propiciou também a outros profissionais da assistência o aperfeiçoamento do seu trabalho de acolhimento com essa população.

O grupo de Karate é dividido em 3 turmas: 1) Adolescentes e alunos mais antigos: com idades entre 12 e 16 anos, ou alunos que já praticaram a tempo suficiente para acompanhar a aula de forma satisfatória, independente de terem alguma limitação de saúde ou não; 2) Crianças menores e iniciantes: idades entre 7 e 11 anos, alunos iniciantes, ou alunos que estejam apresentando muita dificuldade em assimilar os conteúdos, independente de terem alguma limitação de saúde ou não; 3) Adultos: turma que não estava no planejamento inicial do grupo, mas que foi criada após interesse dos responsáveis pelos jovens em também praticarem o Karate;

As divisões aconteceram por uma questão de organização didática entre os conteúdos específicos do Karate. Atividades que envolvam educação em saúde, comportamento, discussões de temas relativos à saúde da criança e do adolescente e qualquer outro assunto de interesse do grupo, são realizadas em conjunto. O Grupo de Karate do Programa Academia Carioca da CF Padre John Cribbin é entendido por todos os seus participantes como uma unidade, que somente é subdividida por níveis de experiência e aprendizagem.

 

A tecnologia ajudando

Criamos um grupo em aplicativo de mensagens, aderindo a uma forma atual de comunicação. Esse grupo aumentou o momento de contato para além das aulas. Nele estão inseridos todos os responsáveis e alguns alunos (via de regra os mais velhos). O grupo favoreceu ainda o aumento do vínculo dos usuários com o profissional de educação física, e entre eles mesmos, ao facilitar a troca de informações, conteúdos, esclarecimento de dúvidas sobre o Karate e outros temas.

 

Diversidade de aprendizagens

O grupo de Karate, além de trabalhar os cuidados com a saúde, agrega o desenvolvimento de outros ganhos, como a incorporação de valores éticos. Entre os movimentos e posições ensinadas do esporte, aprende-se sobre respeito, disciplina, concentração, organização pessoal e coletiva. Ou seja, atributos característicos ao praticante do Karate, mas que são importantes para a vida como um todo. Pensamos antes em formar o cidadão, depois o possível atleta.

Além da criança ou do jovem, ao estar no grupo o adulto ou o idoso responsável também tem a chance de estreitar seus laços com a Unidade de Saúde e conhecer melhor os profissionais. Isso favorece uma abordagem familiar e um espaço para os demais profissionais de saúde realizarem diversas ações de educação em saúde como: orientações de escovação e cuidados com os dentes, cuidados pessoais e higiene, educação para o trânsito, acompanhamento vacinal e muitas outras atividades que poderão garantir um melhor autocuidado dessa população

 

Mudanças e monitoramento

Junto às atividades, os alunos são incentivados a se dedicarem mais aos estudos. Durante as aulas de Karate, frequentemente, o profissional de educação física acompanha o rendimento escolar. Após a participação, os familiares relataram melhora significativa nas notas escolares e um comportamento social mais positivo.

Os alunos são também acompanhados quanto aos seus aspectos físicos e fisiológicos. Por isso, entre o grupo de 155 participantes que já passaram pela atividade desde 2012, dois apresentaram níveis pressóricos de 150x90mmHg, elevados para a faixa etária. Nesse caso, somamos a estratégia de cuidado, orientação nutricional e familiar. A pressão arterial desses participantes reduziu para 120x80mmHg. Foram dois casos em que os adolescentes, de 14 e 15 anos, ainda em fase de crescimento (no momento conhecido como “estirão”), bem abaixo do peso e preocupados com a estética, começaram a seguir orientações equivocadas obtidas na internet. Ingeriram alimentos altamente calóricos diariamente, como frituras, doces e massas. Um deles chegou a relatar ao profissional de educação física que chegava a comer mais de uma dúzia de ovos por dia, sem o conhecimento dos seus responsáveis.

Nos alunos obesos e com sobrepeso que fazem a atividade há pelo menos um ano, verifica-se manutenção do IMC (26,9) e discreta diminuição da média da medida de circunferência abdominal (de 83 cm para 81 cm).

Tanto para o profissional de Educação Física quanto para os outros profissionais de saúde da unidade, o trabalho com o Karate desenvolvido na Unidade demonstra potencial para promoção de hábitos mais saudáveis com chances de serem preservados quando adultos, considerando a individualidade dos participantes. A atividade proporciona também estimulação cognitiva.

Esse trabalho, nos cinco anos de sua existência, mostrou-se um importante espaço interlocutor, sempre atento às subjetividades e singularidades inerentes ao território e à diminuição das vulnerabilidades sociais. Por fim, é visível o fortalecimento do vínculo das famílias das crianças e jovens participantes do Karate com o Sistema Único de Saúde, aspecto essencial para o alcance de um modelo integral de atenção à saúde.

 

Criando novas oportunidades e despertando novas possibilidades

Entendemos que o valor de uma iniciativa, além da consistência da sua estrutura e objetivos, está na sua capacidade de ser reproduzida. Dessa forma, acreditamos, a partir da nossa experiência, que ter formação em Karate não é essencial para se produzir um espaço que proporcione oportunidades de mudança e engajamento. Os resultados podem aparecer em consequência de outra modalidade esportiva, ou qualquer outra ação coletiva – como a construção e cuidado de uma horta comunitária, por exemplo.

Outros profissionais, em outras localidades, poderão produzir, dessa forma, novos coletivos potentes, desde que em sua construção existam valores que atendam aos anseios da comunidade onde a atividade irá acontecer. Para isso, a união com equipamentos já existentes é fundamental.

 

Lições aprendidas

Qualquer trabalho só dará certo se executado em equipe, pois os diferentes pontos de vista, tanto de outros profissionais quanto de outros participantes fazem total diferença na resolução de possíveis problemas ou no atingimento de determinado objetivo;

 

– Planejar é essencial, toda ação deve ser planejada e prevista, pois isso diminui o acontecimento de erros e imprevistos. Sempre nos reunimos com antecedência para planejar o que será trabalho, tanto com outros profissionais quanto com os próprios participantes;

 

– Intersetorialidade, fazer parcerias com outras instituições do território enriquece bastante as ações do grupo, sempre nos reunimos com o comércio local, associação de moradores e outras instituições da Rede.

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