Preparo do Corpo – Ritual de Passagem Sagrado

INSTITUIÇÃO: Secretaria Municipal de Saúde Endereço: Rua 566, nº 31, Nossa Senhora das Graças, CEP: 27215-390 Município/Estado: Volta Redonda, RJ CNPJ: 36.504.470/0001-30

AUTORES: José Antônio Pereira Fernandes (Médico – SAD / SMS) Maria Idalina de Souza (Enfermeira – SAD/ SMS) Marta Lúcia Pereira (Psicóloga – Coordenadora SAD)

CONTATO: SERVIÇO DE ATENÇÃO DOMICILIAR – SAD Marta Lucia Pereira

TELEFONE: (24) 3339.9674 / (24) 9999.0684

E-mail de contato: marta.sad@epdvr.com.br / marta.lp@hotmail.com

EIXO: GESTÃO DO CUIDADO

TEMA PRINCIPAL: PREPARO DO CORPO

TITULO DO TRABALHO: PREPARO DO CORPO – RITUAL DE PASSAGEM SAGRADO

PREPARO DO CORPO NO DOMICÍLIO – RITUAL DE PASSAGEM SAGRADO

Introdução: O relato apresentado versa sobre a experiência do cuidado que a Equipe do Serviço de Atenção Domiciliar (SAD) de Volta Redonda/RJ, vem desenvolvendo ao longo desses quatro anos de atuação na assistência domiciliar ao “corpo pós morte – ritual de passagem sagrado”, como é considerado por nós e especialmente expressado nas palavras de CESAR (2005), ao afirmar que: ”O preparo do corpo é um ritual silencioso que favorece a introspecção, uma imersão em nós mesmos, que dá acesso a algo que está muito além das palavras, algo que não pode ser facilmente expresso porque é da ordem do sentido”. Diante do desafio de cuidar do paciente no final da vida, somos convidados a construir relações que contemplem a dignidade humana de modo a direcionar nosso olhar para as singularidades e pluralidades que este traz, e devem estar presentes neste ato de cuidar. E que, para o nosso paciente deve se expandir para o após a morte, quando aí se encerra no cuidado com o seu corpo. Esse momento é tratado com a reverência que se impõe, pois está diante de nós o corpo que abrigou o sujeito com o qual convivemos por um determinado tempo, na maioria das vezes, seus desejos, sonhos, medos, sofrimentos e esperanças, ou seja, seu singular modo de vida, faz-se necessário resgatar e manter sua integralidade, que pode ter sido desfeita por conta do processo da doença e suas manifestações, devolvendo ao mesmo sua dignidade, o sentido de “ter sido pessoa”. Esse momento nos convoca a manter nossos princípios da paliação – “cobrir com o manto” – realizando um procedimento não apenas como mais uma tarefa a cumprir racionalmente, mas como um fazer que exija além da competência técnica uma capacidade crítica, criativa, de sensibilidade, compromisso e ética, imprimindo sentido ao nosso fazer. É importante manter os aspectos afetivos e existenciais do homem a quem cuidamos, porque foi assim que a relação se estabeleceu em vida, e que deve perpetuar no preparo do corpo após sua morte. De todo o exposto até então, partimos da premissa que a natureza da vida humana é tida sob a noção de que um espírito habita um corpo, e que não é restrito por um entendimento de espaço/tempo material e cronológico, (…) que continua a existir no tempo, cujo corpo pode desfalecer, mas a essência e o espírito continuam sua jornada de vida, em outras dimensões (WATSON, 2007). E por fim, entendendo que ritual é um conjunto de gestos, palavras e formalidades, várias vezes atribuído de um valor simbólico, usualmente prescrito por uma religião ou pelas tradições da comunidade e que possuem a função de gerar a energia necessária para darmos início ou fim a uma determinada situação (CESAR, 2005), sem perder de vista o sentido do sagrado que o mesmo encerra, é que o relato desta experiência traz como Objetivo: apresentar a nossa prática na realização deste ritual de preparo do corpo no domicílio, amenizando as transformações próprias do corpo sem vida, como gesto humanitário para o paciente e sua família, completando desta maneira o ciclo do cuidado proposto pela equipe. Metodologia: Relato de experiência no preparo do corpo pós morte de como se descreve a seguir: constatação do óbito /acolher a família e comunicar sobre a rotina do preparo do corpo para obter permissão do procedimento/ deixar a critério da família a opção de acompanhar e participar /consultar previamente a família sobre o desejo, crenças, valores e costumes do paciente em vida/solicitar a vestimenta selecionada /solicitar a família uma foto recente do paciente, anterior a evolução grave da sua doença/ posicionar o corpo no alinhamento anatômico, fechamento das pálpebras, introdução da prótese dentária, fechamento da boca e elevação discreta da cabeça (30º) para evitar a descoloração facial antes que ocorra o enrijecimento do corpo e para prevenir manchas de coloração purpúrea ou azulada/ retirar sondas, drenos, cateteres, fixadores e outros/fazer higiene do corpo /refazer ou reforçar os curativos/realizar os tamponamentos dos orifícios: nasal, oral e anal e outros se necessário/cuidados estéticos: usar técnica de preenchimento da cavidade oral; manter compressa de gaze umedecida nos olhos para facilitar o fechamento das pálpebras; pentear os cabelos, cuidar da barba e bigode; hidratar e perfumar o corpo, especialmente mãos e face; vestir o corpo e colocar adornos / /recolocar o corpo no posicionamento anatômico inicial com a cabeça sobre um travesseiro (20º) /fazer as contenções de mandíbula, mãos e pés conforme /cobrir o corpo com lençol limpo até a altura da clavícula com os braços descobertos/ Resultados: Na nossa filosofia de trabalho julgamos importante a preparação do corpo com um olhar para o momento sagrado, tendo como base três vertentes a saber: do ponto de vista do morto – tem significado tanto estético, porque este é o encontro derradeiro neste plano material com os familiares, parentes e amigos, quanto espiritual, porque essencialmente assim somos; do ponto de vista dos entes queridos é considerado o marco do processo de luto para a maioria. “O processo do luto inicia-se com um choque mental: se resiste em assimilar que de fato aquela pessoa tenha morrido” (CESAR, 2005, p.246). E do ponto de vista da equipe – porque nos tornamos, em geral, íntimos de todos que participaram da evolução do processo de morrer, compartilhamos emoções, saberes e crescimento espiritual tão importante para toda a equipe, encerrando aqui nossa missão com a pessoa que morreu. Ficando para finalizar com os entes queridos e todos que participaram desta jornada de cuidados, através do agendamento oportuno, a visita de luto. Conclusão: Enquanto equipe de cuidados paliativos, devemos lembrar que cada pessoa tem sua singularidade e merece nosso respeito e dedicação diante da sua terminalidade e morte, exigindo a manutenção de uma sensibilidade cuidadora constante no preparo do corpo – que nos é sagrado – porque representou um sinal de todas as alianças do homem consigo mesmo, com o seu passado, sua história, com o ambiente que o cercava, com seus desejos e sonhos, com suas conquistas e frustrações, com o que ele acreditava. Por isso o corpo jamais deve ser profanado. Trabalhar com a finitude humana expressa no nosso cotidiano, implica nesse olhar abrangente para a relação profissional – pessoa, que envolve o processo de viver, adoecer e morrer. A proposta de um agir diferenciado no cuidar do corpo após sua morte busca contemplar um resgate do humano, ancorada ao respeito e a dignidade diante da morte, e desse modo, o cuidado se estende à família doadora e receptora de cuidados frente à dura tarefa de cuidar, que nesse momento de dor e sofrimento, sente-se acolhida, assistida e gratificada com o desvelo dispensado ao ente querido, identificando-se aí o impacto causado no ambiente do cuidado e no entorno desse paciente.

BIBLIOGRAFIAS CONSULTADAS

CESAR, B. O Livro das Emoções – reflexões inspiradas na psicologia do budismo tibetano. São Paulo: Editora GAIA, 2005.

SÁ, A. C. Importância da Espiritualidade para Profissionais de Saúde in Santos, F. S. (org.). A Arte de Cuidar: saúde, espiritualidade e educação. Bragança Paulista, São Paulo: Editora Comenius, 2010.

SANTOS, F. S. & Incontri , Dora (org.). A Arte de Morrer: visões plurais. Bragança Paulista, São Paulo: Editora Comenius, 2009.

._______________ . Cuidados Paliativos: discutindo a vida, a morte e o morrer. São Paulo: Editora Atheneu, 2009.

._______________ . Cuidados Paliativos: diretrizes, humanização e alívio de sintomas. São Paulo: Editora Atheneu, 2011.

. SAPORETTI, L. A. Espiritualidade nos Cuidados ao Fim da Vida in Santos, F. S. (org.). A Arte de Cuidar: saúde, espiritualidade e educação. Bragança Paulista, São Paulo: Editora Comenius, 2010.

. WATSON, J. Watson’s theory of human caring and subjective living experience: carative factors/caritas processes as a disciplinary guide to the professional nursing practice. Texto & Contexto Enfermagem. Florianópolis: Santa Catarina, 2007;16(1):129-35.

 

 

 

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