O SUS que acolhe, cuida e salva

Toda vez que inicio minha jornada de trabalho no Sistema Único de Saúde (SUS), como profissional da assistência, tenho duas grandes certezas: a de precisar estar atualizado para abordar questões de saúde às vezes complexas e a de abrir minha mente para conseguir entender e cuidar das situações de sofrimento humano que nos são apresentadas.

Dia desses atendi uma senhora bem no início de sua gestação com queixa de dores abdominais fortes surgidas na véspera. Logo percebi, pelo semblante dela, que o incômodo era algo real e limitante. Colhi um rápido histórico clínico e procedi ao exame físico: a palpação abdominal revelava um aumento de tensão e desconforto à mais leve pressão sobre a barriga; o toque vaginal mostrava sinais de dolorimento à mobilização do útero. Todos esses sinais e sintomas levaram-me a suspeitar de um quadro grave e urgente, com risco potencial à vida daquela usuária do SUS.

Encaminhei a senhora para colhermos imediatamente exames laboratoriais e solicitei ao colega plantonista a realização de uma ultrassonografia de urgência. Feita a ecografia, ficou claro que o caso tratava-se de uma gravidez ectópica (fora do útero) que se desenvolveu dentro da tuba uterina direita. A tuba já estava rota, gerando sangramento para dentro da cavidade abdominal (o que explicava todo o quadro doloroso sentido pela paciente). O caso, que já era urgência, virou uma emergência.

Ainda na sala de ultrassom, conversei com nossa usuária, expliquei a natureza do problema e da necessidade de resolução cirúrgica imediata frente ao risco de vida apresentado. Obviamente tomada pela emoção e frustração deste desfecho inesperado, ela chorou, fez algumas perguntas e me autorizou a seguir com a conduta proposta. Na saída da sala, chamei a acompanhante, expliquei a situação novamente e seguimos para o bloco cirúrgico.

Tudo funcionou a contento. Equipe de enfermagem eficiente e atuando prontamente. Anestesista a postos. Os materiais necessários para a cirurgia todos disponíveis. Solicitamos reserva de hemoderivados para uso em caso de hemorragia grave e iniciamos o procedimento de emergência.

Ao abrirmos a cavidade abdominal, logo verificamos uma hemorragia volumosa, entremeada por coágulos sanguíneos. Aspiramos o conteúdo e identificamos a tuba esfacelada. Lá estava o saco gestacional anômalo, causador de toda a emergência. Extraímos toda a área comprometida, controlamos todos os focos de sangramento, limpamos a cavidade e suturamos tudo de volta. Ao final, mostrei à paciente e ao seu marido a peça cirúrgica, para que pudessem comprovar a nossa ação e resolução do caso. Também tranquilizei-a sobre a possibilidade de gravidez futura, uma vez que a outra tuba estava íntegra e saudável. O casal nos agradeceu muito a ação rápida, resolutiva e salvadora.

Esta história mostra a imensa diferença que o pronto acesso aos cuidados de saúde acabam tendo na vida de uma pessoa, sua família e seu futuro. Apenas imaginem essa senhora inserida em um cenário elitizado, restritivo pela condição financeira, onde lhe fosse negado o devido cuidado por falta de dinheiro. Também imaginem esse caso ocorrendo em um local onde o SUS não estivesse adequadamente implantado e com equipe tecnicamente apta a cuidar das pessoas em situações críticas. A grande diferença em prol da preservação da vida foi o direito real de cidadania sendo exercido em tempo oportuno.

O Brasil tem milhares de casos como este sendo abordados rotineiramente em seu território. Apesar da dificuldade de acesso ainda existente, em parte causada pelo claro estrangulamento entre as necessidades em saúde e a oferta de serviços, fazemos muito por nosso povo. Já temos imenso reconhecimento por parte daqueles que um dia passam por nossos serviços. O que falta ainda é a percepção do conjunto da sociedade, de todos os estratos sociais, da inviabilidade de país que seríamos sem o conjunto de proteção social garantido pela Carta Magna de 1988 – nele inserido o nosso Sistema Único de Saúde. Cabe a todos os brasileiros enxergar e defender o SUS como um dos maiores patrimônios públicos que a história de nosso país ousou construir. Somos, para muitos, a diferença entre a vida e a morte.

Por Newton Lemos, Médico Ginecologista, Obstetra, Especialista em Gestão de Políticas de Saúde e colaborador da OPAS/OMS Brasil

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