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O coordenador da OPAS no Brasil, Renato Tasca, fala dos Laboratórios de Inovação no Brasil e da sua missão no escritório central da OPAS em Washington

O médico Renato Tasca se formou em Turim e especializou-se em saúde pública na Itália e Inglaterra. Teve a oportunidade de trabalhar no Brasil em vários momentos do processo de construção do SUS. Foi coordenador do projeto Distrito Sanitário de Pau da Lima, realizado pela Secretaria Estadual de Saúde da Bahia – SESAB junto com a Cooperação Italiana, no inicio dos anos de 1990. Trabalhou em outros projetos de cooperação técnica na área da saúde com várias instituições internacionais em países da América Latina e da África. Antes de assumir a Unidade Técnica de Serviços de Saúde da OPAS/OMS no Brasil, em 2008, ocupava cargo no governo da Itália. Agora despede-se do Brasil para assessorar o escritório central da Opas em Washington, na área de sistemas integrados de saúde, onde sua meta principal continuará sendo o desenvolvimento das redes de atenção à saúde baseadas na Atenção Primária à Saúde.

 

Durante a sua gestão na Opas Brasil, desenvolveu o método de trabalho – Laboratórios de Inovação – que ganhou prospecção e relevância ao buscar produzir evidência na gestão e gerar conhecimentos. Em entrevista ao Portal da Inovação na Gestão do SUS, Renato Tasca fala faz uma reflexão sobre o SUS e sobre o trabalho desenvolvido nos últimos quatro anos.

 

1 – Qual contribuição você destaca no desenvolvimento do SUS durante o período em que coordenou a Unidade Técnica de Serviços de Saúde da Opas no Brasil?

 

A Unidade Técnica de Serviços de Saúde da Opas Brasil é uma das maiores interlocutoras com Ministério da Saúde, tanto em termos de volume de recursos financeiros que gerencia como em número de projetos desenvolvidos. Nós temos como contrapartes a Secretaria Executiva, a Secretaria de Assistência à Saúde, a Secretaria de Gestão Participativa, além do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Agência Nacional de Saúde (ANS), Conass, Conasems, secretarias estaduais de saúde de São Paulo, Bahia e Pernambuco. Nossa área acompanha transversalmente todos os processos do SUS. A nossa postura foi de parceria com as autoridades do SUS, valorizando práticas inovadoras. Fizemos uma forma diferente de fazer cooperação. O objetivo foi procurar boas práticas, experiências inovadoras no SUS, registrar o que o Brasil está fazendo, sistematizando o conhecimento, para valorizá-lo e divulgá-lo dentro e fora do Brasil.

 

2 – Em que práticas o SUS deveria ser modelo para outros países?

 

O Brasil é um país emergente que para muitas pessoas representa o futuro, juntamente com os outros países dos Brics (Rússia, Índia, China e África do Sul), onde é depositado expectativas, mas ao mesmo tempo possui grandes desafios, como por exemplo, a questão da pobreza. Mas o Brasil está tentando uma resposta, o programa de erradicação da pobreza é reconhecido mundialmente, possui condicionalidades de saúde. Na área especificamente da saúde, o Brasil é o único país de dimensão continental que tem cobertura universal de acesso a serviço de saúde.  O SUS existe de fato, o Brasil tem potencialidade para se apresentar no cenário global como um país líder e com vasta experiência. O Brasil construiu a cobertura universal em um período muito curto. O Programa Saúde da Família em menos de 10 anos alcançou uma cobertura de mais de 50% da população. É um exemplo forte e importante, pois mesmo em um país com dimensão continental, com diferenças regionais enormes, o Brasil conseguiu montar mais 30 mil equipes nesse período. O Brasil pode dizer à Índia, China, que tem um modelo de atenção à saúde. E esse discurso é o nosso discurso. Dentro de todo potencial do SUS você tem que procurar as mensagens que são globais e traduzir essa mensagem dentro e fora do Brasil para que outros aproveitem esse conhecimento, essas práticas.  Essa é a nossa lógica e isso implica em uma postura diferente na hora de fazer cooperação.

 

3 – Nesta busca por experiências inovadoras em saúde, quais você destaca?

 

Tem muitas experiências. Alguns locais e experiências que já estão investindo há mais tempo podem ser referência, como é o caso do sistema de saúde em Curitiba. São soluções inovadoras frutos de um processo, de reflexão, de tentativas de acertos e erros. Tem também a experiência da secretaria estadual de Minas Gerais e de São Paulo, alguns municípios paulistas, como Campinas, Diadema, São Bernardo do Campo inovaram também em saúde pública. Essa busca, esse scouting de inovações, que fazemos é muito contextualizada. Porque, na lógica que trabalhamos, inovação não é uma coisa nova, original. Mas se eu faço uma coisa que em um determinado contexto nunca foi feito antes e apresenta resultados positivos, isso é uma inovação em nível local. Nessa lógica é difícil dizer que inovação se concentra em apenas uma área. Eu também posso ver experiências pontuais que podem ser muito interessantes e inovadoras também. Eu tenho que procurar ações sistêmicas, mas posso ter inovações de práticas pontuais e relevantes, pois me darão carona para chegar aonde eu quero. Essa lógica de desenvolver o SUS como uma grande comunidade de prática é inovador. Em alguns momentos, nós trouxemos experiências internacionais para que as autoridades do SUS olhassem para fora para saber o que está acontecendo,  como por exemplo no tema da participação social onde apresentamos metodologias da Itália, França e Portugal.

 

4 – Durante a sua gestão você idealizou e lançou o Portal para Gestores sobre Redes e APS, com apoio do Ministério da Saúde, Conass e Conasems, onde são divulgadas práticas inovadoras do SUS. O portal amadureceu e agora chama-se  Portal da Inovação na Gestão do SUS. Qual a sustentabilidade do projeto na Opas Brasil após a sua saída?

 

Por serem processos muitos flexíveis são mais vulneráveis. Eu acredito que aqui na Opas Brasil algumas ações foram incorporadas. E no SUS, essa lógica de trabalho foi assimilada. O próprio nome Laboratório de Inovações é mais comum hoje, nós temos Laboratórios com o CNS, ANS, Conass e diferentes departamentos da SAS. Aqui na Opas, outras áreas como a materno infantil e a nutrição estão com interesse no método. A equipe da Unidade Técnica Serviços de Saúde da Opas no Brasil é preparada e tem capacidade para dar continuidade a esses processos. O meu papel foi de animador, criativo, mas não de técnico. Por ser uma ação transversal não tem lugar para experts, nós fazemos avaliação de políticas públicas de saúde conforme o seu contexto. Temos como foco àqueles mecanismos que permitem dar o pulo do gato, a mudança, na política de saúde.

 

5 – Qual é o pulo do gato para consolidação do SUS?

 

Fundamentalmente é a linha que o país está assumindo, que é a linha da integração da rede de serviços em saúde. Abandonar a idéia de que se pode trabalhar com estabelecimentos e serviços de saúde de forma fragmentada, entender que esse modelo fracassou, e partir para a integração. O Brasil tem legislação sobre Redes de Atenção, políticas nacionais temáticas, como a Rede Cegonha, estão na agenda política e as experiências estão acontecendo em estados e municípios. É uma das grandes bandeiras da Opas e um dos grandes movimentos de mudança do sistema de saúde no Brasil. O grande pulo do gato foi o reconhecimento que é fundamental integrar os serviços de saúde, fazer funcionar o que já tem, de uma forma mais inteligente. A atenção primária tem que ter a capacidade de interceptar a demanda, com uma atitude mais ativa, assumir a responsabilidade pela população adstrita, cuidar desse usuário conforme a sua necessidade na rede de atenção.

 

6 – Quais desafios que dificultam a integração da rede de atenção?

 

O primeiro desafio é a capacidade de Atenção Primária introduzir mudanças importantes na prática clínica, devido ao enfoque na doença que se é dado. É um desafio produzir mudanças fortes no dia-a-dia. Se você muda a prática você muda a organização do serviço. A atitude da Atenção Primária deve mudar, para que ela assuma a responsabilidade daqueles usuários adstritos ao seu território. É uma mudança cultural. Na hora em que eu colocar o usuário como centro da minha atenção, da unidade de saúde, eu mudo a minha organização interna.

 

Tem a questão da capacitação técnica dos profissionais de saúde também, mas antes tem o desafio da sensibilização e da valorização desses profissionais. As pessoas têm que entender que trabalhar com serviço público não é pior trabalho do mundo, é bom porque você tem o resultado direto do que está fazendo na saúde da pessoa. Se você é um enfermeiro e atende o diabético e vê que ele melhorou, você contribuiu para esse resultado. O primeiro passo é os profissionais de saúde se identificarem como servidores sociais e saberem a relevância do trabalho deles.

 

Outro desafio fundamental é a mudança cultural da sociedade. Se o povo acha que pode beber e comer o que quiser, dirigir bêbado, transar sem camisinha, que depois tem o hospital que te dará o retroviral, equipamentos para ventilação mecânica… isso não funciona. As próprias pessoas têm que entrar numa lógica de valorizar e cuidar da sua própria saúde. Não estou falando das condições agudas que tem ser atendido na emergência. A sociedade precisa dar um basta a situações absurdas, a  estímulos que não melhoram a sua saúde, como por exemplo publicidade de bebida na TV, vender bebidas alcoólicas nos estádios durante a Copa do Mundo… isso precisa mudar.

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