O projeto Lacre do Bem começou a ser desenvolvido em 2015, na cidade de Andradas, Minas Gerais, pelos profissionais do Centro Integrado de Assistência à Saúde (CIMAS) da Secretaria Municipal de Saúde. A ideia inicial foi de armazenar lacres, replicando iniciativa existente em âmbito regional, desenvolvida por algumas empresas. Esse projeto buscou a conscientização de crianças e adolescentes de todas as instituições de ensino do município sobre a importância de reutilização dos lacres que eram coletados para troca por insumos para instituições filantrópicas da comunidade. Assim, considerou-se a possibilidade de angariar fundos ou materiais a partir da venda dos lacres para suprir a carência financeira e estrutural das instituições filantrópicas do município.

O CIMAS e o Departamento de Educação do Município desenvolvem trabalhos em parceria com as escolas andradenses, voltados para disseminação de informações e diálogo com alunos sobre diversos temas da saúde, tais como dengue, sexualidade, drogas, saúde bucal, dentre outros. Diante dessa parceria existente, e da possibilidade de o projeto ser desenvolvido por estudantes de todas as idades, a iniciativa Lacre do Bem teve boa aceitação pelas instituições de ensino. Outro fator positivo para o projeto era o grande número de escolares que poderiam participar da iniciativa.

No decorrer do tempo, as crianças e os adolescentes aderiram à causa e começaram a trazer os lacres para as escolas. Esse material recolhido por todos, a partir da mobilização coletiva, possibilitou ajudar as instituições filantrópicas da cidade por meio de aquisição de insumos necessários. Além disso, essa mobilização em prol da filantropia possibilitou desenvolver com os estudantes valores de coletividade, reutilização de recursos e importância de construção de ações para o bem. Com os resultados positivos do projeto Lacre do Bem, a parceria entre o CIMAS e o Departamento de Educação se fortaleceu.

Em meados de 2017, a supervisão técnica do CIMAS verificou a ausência de notificação da saúde acerca das situações de violência, uma vez que era sabido que muitos munícipes procuravam serviços na rede municipal de saúde por acontecimentos dessa natureza, demandando  curativos por ferimentos causados por violência física, atendimentos psiquiátricos e de psicologia, devido a situações traumáticas e de desordem emocional como consequência de ameaças ou relacionamentos abusivos (Violência Psicológica), cuidados médicos emergenciais devido a violências autoprovocadas, dentre outras. Na contramão desses fatos, havia baixo índice de notificações no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) preenchidas corretamente e encaminhadas à Vigilância em Saúde.

Estudando mais a fundo o problema, a equipe compreendeu que a subnotificação estava relacionada a três dimensões: social, pessoal e profissional. No âmbito dessa experiência, entendemos por violência SOCIAL aquela em que pensamos como a sociedade, num contexto geral, se cala diante da constatação de acontecimentos de violência, sendo ainda tratado tal fenômeno como um problema de ordem particular, ilustrada pela frase: “em briga de marido e mulher, não se mete a colher.” Entendemos por violência PESSOAL aquela relacionada à dificuldade para vítimas decidirem solicitar ajuda profissional e expor sua vida e tais acontecimentos a uma pessoa fora do seu círculo de convivência. Por vergonha e/ou receio de retaliação, caso não haja respeito e sigilo, não comentam nada sobre o que realmente vem acontecendo, omitindo a violência sofrida. E, por último e não menos importante, entendemos o nível PROFISSIONAL, quando percebemos o despreparo e a desmotivação dos profissionais que atuam junto à essas pessoas a identificarem a existência da violência e suas consequências para a saúde dessas pessoas.

Identificou-se a existência de uma lacuna na oferta de acolhimento e de esclarecimentos sobre aspectos de quadro clínico dos usuários. Isso somado à falta de comprometimento no preenchimento da notificação, resultava em baixo número de dados e escasso número de fichas.

Dentre esses três pilares de subnotificação citados, o nível PROFISSIONAL foi trabalhado primeiro, por intermédio de rodas de conversa com as equipes nas Unidades Básicas de Saúde, para acolher as dificuldades e conscientizar os profissionais sobre a importância da notificação devidamente utilizada. Buscamos sanar todas as barreiras citadas pelos profissionais para o andamento exitoso da ideia, tais como: fluxo da ficha de notificação para Vigilância em Saúde, sigilo, esclarecimento de método de preenchimento, possíveis encaminhamentos, etc. Essa ação contemplou distritos rurais, Pronto Atendimento Municipal e ESF´s, sendo essas todas as portas que se mostram abertas para atendimento da população municipal em situação de violência.

Com relação a essa etapa de trabalho com os profissionais de saúde dos diversos serviços do município, inúmeras dificuldades foram encontradas. Foi perceptível a falta de treinamento dos profissionais quanto à temática da violência, através de pontuações e indagações verbalizadas por eles: questionamentos sobre quais eram os serviços da rede que essas pessoas poderiam buscar e usufruir, os motivos pelas quais estas se submetiam a “aceitar” violência.

Outro ponto foi a dificuldade de datas para reunir a maioria da equipe, principalmente os profissionais de medicina. Por receio de causar prejuízo aos atendimentos, tivemos pouco contato com eles. Assim, em muitas unidades de saúde foi realizada capacitação a individual com o profissional responsável sobre a temática da violência.

Além dessas dificuldades citadas, verificou-se outra, relacionada à naturalização da violência pela sociedade, representada por verbalizações de ser este um problema sem solução, típico de algumas classes, assuntos particulares.

Pontua-se ainda a verificação de falta de interesse de profissionais em participar do projeto de capacitação e de ampliação do acolhimento das situações de violência que chegam nos serviços de saúde. Apareceram argumentos de defesa a fazer apenas aquilo que lhes cabe (preencher notificações), caracterizando fechamento diante dos fatos de violência.  A falta de disponibilização das fichas impressas do SINAN também foi uma barreira colocada pelos profissionais, prontamente solucionada pelo projeto de capacitação de profissionais para atenção às situações de violência.

Essa etapa de sensibilização e formação dos profissionais de saúde foi realizada durante todo o ano de 2017. Em 2018, os dados obtidos foram catalogados pela equipe do projeto. As informações contidas nas notificações foram transformadas em números e esboçadas em gráficos, para compartilhamento dos dados no SINAN.

Com os dados disponíveis, percebeu-se a presença da reincidência da violência, sendo que 51% das vítimas no ano de 2017 sofreram com os mesmos atos em uma ou mais oportunidades, pelo mesmo suposto agressor. Visto isso, o projeto refletiu sobre a eficácia da prestação de serviços na rede pública de saúde a essas pessoas, uma vez que o ciclo da violência não foi rompido.

Analisando as possibilidades de atuação do projeto para prevenção da violência e combate ao ciclo verificado, surgiu a ideia de levar as informações obtidas até as pessoas, à comunidade, de maneira assertiva. Como? Conversando sobre violência contra as crianças com escolares, violência autoprovocada com a faixa etária de maior demanda, etc. Essa ação, baseada nos dados verificados no município, serviram como forma de aproximação da população de crianças e adolescentes.

Nessa etapa do projeto, evidenciou-se para esse público a importância, a preocupação e o acompanhamento da saúde municipal a estes tipos de violências. Haja vista o grande número de casos de violência contra crianças e adolescentes verificados no município, o projeto buscou aproximação com as pessoas dessas faixas etárias, com os objetivos de acolher vítimas, detectar possíveis novos casos e conscientizar sobre o tema aqueles que, por ausência de conhecimento do assunto, pudessem estar vulneráveis/suscetíveis a estes acontecimentos.

Para tanto, foram realizadas 97 oficinas em 08 escolas, conduzidas por profissional psicólogo do CIMAS, para trabalhar com crianças e adolescentes a conscientização à violência. Essa ação é considerada distinta das ofertadas geralmente, com ofertas de atenção nos setores secundário e terciário da saúde, cuidando de feridas ou reparando alguma violência já sofrida. Trabalhou-se, assim, o nível PESSOAL de subnotificação, antes citado neste texto, que inclui o reconhecimento da vítima sobre a situação de violência e a busca pelo serviço de saúde

O Projeto Lacre do Bem realizado nas escolas, foi a porta de entrada para conversar com as crianças e adolescentes sobre violência. Para a realização desse novo projeto, foi elaborado plano de ação para atuação de um profissional de psicologia. Inicialmente, o projeto de prevenção à violência levou informações sobre este fenômeno aos profissionais das instituições de ensino compartilha dimensões quantitativa, utilizando índices extraídos das notificações SINAN, e qualitativa da violência no município. Além desta explanação, realizou-se roda de conversa para esclarecimento de dúvidas dos educadores sobre o assunto.

Houve dúvida sobre a definição de sinais comportamentais ou de socialização para uma maior detecção, no ambiente escolar, de crianças vítimas de violência. Nesse sentido, foram compartilhados os objetivos específicos e gerais do projeto, para que todos estivessem orquestrados sobre o trabalho realizado com os alunos.

Na proposta com os estudantes, o profissional de psicologia visitou as salas, na maioria das vezes, sem a presença do professor. Tal escolha se deu pela percepção de uma participação mais ativa dos alunos quando professores não estavam presentes. As crianças e adolescentes pareciam ficar mais à vontade para realizarem perguntas, citarem exemplos ou exporem situações de suas vidas, permeadas por atos de violência.

Em um primeiro momento, o profissional de psicologia convidou os estudantes para participar do projeto Lacre do Bem, citando sua existência como forma de amortizar a violência. Foi verificado continuamente a existência de dúvidas das crianças, que realizavam perguntas ao grupo sobre: “o que é violência?”; “Quem são as pessoas que passam por isso?”; “Qual a idade que mais sofre com este acontecimento?”; entre outras. A partir dessas perguntas, fomentou-se um espaço de diálogo, utilizando a Psicoeducação sobre Violência Infantil, explicitando: consequências negativas, culpabilização da vítima, rede de apoio, comportamento dos agressores(as).

Ressalta-se as pactuações facilitadas pelo profissional no início da conversa com os estudantes, tais como: a proibição em citar nomes ou apontar colegas, o sigilo mantido pelo profissional, o respeito mútuo sobre o assunto e a possibilidade de diálogos a nível individual em outra data são citados nos primeiros minutos aos indivíduos presentes na intervenção.

Percebeu-se que os adolescentes entendiam como violência aqueles atos relacionados a espancamento, crimes atrelados a drogas ou furtos/assaltos. Neste momento, foi conduzida atividade voltada para ampliação de percepção sobre o assunto. Para tanto, o profissional buscou apresentar outros significados da palavra violência, até então desconhecidas para os estudantes e, paralelamente, mostrou ao grupo a prevalência deste fenômeno no cotidiano, na escola, na rua, em casas, nas vidas.

Devido à faixa etária dos participantes, o profissional se limitou a conversar sobre a tipologia da violência contra crianças e adolescentes, sendo esta composta por: violência física, psicológica, sexual e negligência. O grupo foi estimulado a tentar encontrar e citar exemplos de atos que se enquadravam em algum tipo de violência. Aos poucos, as dúvidas ou incertezas foram sendo abordadas e esclarecidas pelo profissional responsável pela atividade.

Alguns mitos sobre o assunto, trazidos pelo profissional em forma de dúvida, foram debatidos pelo grupo para provocar a reflexão. Consequências e sentimentos negativos e dificuldades encontradas pelas vítimas foram apresentadas aos adolescentes, sendo este um dos momentos de maior impacto, maior atenção do grupo e de menor esboço de comportamentos contrários à ação (risadas, brincadeiras, conversas paralelas).

Ao final, o profissional disponibilizou informações sobre entidades assistenciais prestadoras de serviços a essas vítimas, situadas na cidade e em funcionamento.  Informou-se sobre a equipe de profissionais que nela atua, seus objetivos, endereços, métodos de trabalho e dificuldades, tais como a subnotificação, percepções contrárias à necessidade do serviço, além de dificuldades de ordem financeira na compra de materiais que são utilizados ou disponibilizados à usuários destes serviços.

O projeto Lacre do Bem serviu como uma estratégia para aproximar as crianças e adolescentes da prevenção da violência, por meio da conscientização sobre a existência de serviços especializados na cidade para auxílio das vítimas e, consequentemente, fomentar valores éticos e morais, simbolizados pelo gesto de armazenar os lacres que proporcionariam insumos para a filantropia.

O lacre, para ser guardado na garrafa, precisava ser retirado por eles da lata. Para ser retirado, fazia-se necessário lembrar que, através da união de vários “um lacre”, podia-se encher uma garrafa e alcançar o objetivo do armazenamento: proporcionar esperança a pessoas com algum tipo de necessidade, pessoas que poderiam até ter passado por situações de violência. O lacre foi associado com um sentimento bom. Cada lacre ali depositado referia-se a um sentimento positivo. Várias pessoas unidas pelo mesmo desejo tornaram aquela meta mais possível de ser alcançada. Logo, verificou-se que muitos sentimentos bons juntos podem transformar a realidade, transformação essa representada pela troca dos lacres por materiais ortopédicos ou dinheiro para as instituições que prestam serviços de saúde e/ou assistência à população.

As crianças e/ou adolescentes tendem a cobrar os pais para lhe ajudarem a reter os lacres. Perguntadas, precisam explicar qual o motivo. Os pais e/ou familiares tendem a refletir sobre o fenômeno, verbalizando o impacto positivo das ações das crianças e adolescentes. Familiares de outros municípios e comunidades também são contatados por elas e, aos poucos, podemos presenciar uma ação pela paz, disseminada de maneira horizontal e gradual. Estamos, assim, mais próximos possíveis da disseminação da paz.

Hoje se percebe, através deste projeto, o quão carentes de diálogos sobre este ou assuntos distintos do cotidiano escolar estão nossos jovens. Muitos grupos de diferentes escolas passaram a pensar em intervenções sobre transtornos mentais, desenvolvimento físico de sua faixa etária, violência doméstica, ideação suicida, uso de drogas. Algumas escolas solicitaram a presença do profissional psicólogo para palestrar sobre alguns destes assuntos, sendo este um pedido dos próprios alunos.

Inúmeras crianças e adolescentes procuraram o profissional após a intervenção, para conversa em particular. Ideações suicidas, revelações de automutilação, situações de violência sexual em âmbito doméstico, pedidos de socorro. O profissional se prontificou, em todos os casos, a acolher as criança e adolescentes, informando a direção escolar e orientar professores quanto a comportamentos ou ações que oferte auxílio ao indivíduo no contexto escolar. Nos casos percebidos, o próprio profissional responsabilizou-se pela notificação.

A cada nova notificação e encaminhamento realizado, entendemos que estamos sinalizando caminhos para que essas vítimas encontrem as portas abertas para alívio e transformação de seus sofrimentos. Estamos certos que, desse modo, colaboramos para a diminuição da reincidência da violência, promovendo ações que reforcem uma cultura de paz e de acolhimento ao sofrimento.

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