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JUVENTUDE EM AÇÃO: PROGRAMA DE PREVENÇÃO AO USO/ABUSO DE DROGAS COM ÊNFASE NA VALORIZAÇÃO DA VIDA

No decorrer do nosso cotidiano, nos diferentes ciclos da vida nos depararmos com desafios previsíveis e imprevisíveis. Diante desses desafios, muitos conseguem desenvolver atitudes positivas diante da vida, sem perder a confiança em si e nos outros, saindo, inclusive, revigorados das provocações que a vida nos convida a experimentar. Porém, há muitos que cruzam os braços diante das dificuldades, desistindo de lutar, sentindo-se sozinhos, acreditando, inclusive, que a infelicidade é uma fatalidade. Há outros que buscam soluções mágicas para os problemas, recorrendo, por exemplo, ao uso/abuso de remédios (drogas) ou ao consumo de bebidas alcoólicas.

A opção pelas “poções mágicas” vem aumentando consideravelmente, e é um fato na realidade brasileira, atingindo indivíduos, famílias e comunidades de diferentes maneiras e razões, em diferentes contextos e circunstâncias. Trata-se de um sério problema de saúde pública, com enorme repercussão social, que interfere não só na vida de usuários e de seus familiares, mas no cotidiano de toda a população.

Frente a esse cenário, desde 2015, o Sistema Integrado de Prevenção (SIP) da Secretaria de Políticas sobre Drogas do Ceará (SPD), em parceria com as Coordenadorias Regionais de Desenvolvimento da Educação do Ceará (CREDES), está implantando o programa Juventude em Ação, voltado para estudantes do Ensino Médio da rede pública, nas diferentes regiões do estado. No período de 2015 a 2017, o programa percorreu 44 cidades, em 13 regiões administrativas do estado. Durante esse tempo, o programa foi implantando e desenvolvido em 55 escolas, com o apoio de 15 CREDES, beneficiando cerca de 45.000 estudantes

Atualmente o programa está em 17 cidades, 34 escolas, incluindo as regulares, de tempo integral e profissionalizantes, favorecendo cerca 14.000 estudantes do Ensino Médio da rede pública do estado do Ceará.

O programa Juventude em Ação é uma experiência inovadora que toma como ponto de partida a necessidade do seu público alvo, não utiliza linguagens pejorativas, nem imagens negativas em relação aos usuários. Assim, torna possível a comunicação entre as diferentes formas de saber popular, científico e político, integrando conhecimentos, ampliando redes solidárias, valorizando e reconhecendo a rede de apoio formal e informal, e tendo como base o conceito de saúde que integra todas as áreas da vida humana. Além disso, prioriza a intersetoriaridade na compreensão e na abordagem dos principais temas que circundam a adolescência e a prevenção, incluindo a comunidade do entorno. Foca nas potencialidades das pessoas, famílias e comunidades, propondo regras de convivência que visam assegurar a circularidade e a horizontalidade, estimulando comportamentos saudáveis.

Ao se evidenciar recursos culturais, suscita a responsabilidade relacional e a circulação de informações, promovendo o convívio democrático na direção da valorização da vida. Revê mitos sobre as substâncias psicoativas, como a ideia de que drogas lícitas, como o uso de álcool, não trazem prejuízos para a vida. Propõe, ainda, uma mudança de olhar, assinalando a importância de considerar a forma como as pessoas se relacionam com a droga, e não a droga em si.

O programa Juventude em Ação foi construído em território cearense a partir das inquietações/preocupações de jovens e seus familiares, e de profissionais da educação e saúde em relação ao uso/abuso de drogas e outras adversidades do cotidiano, sinalizadas em rodas de Terapia Comunitária desenvolvidas nas diferentes regiões do Brasil, e em outras práticas de cuidado coletivo aplicadas no contexto escolar.

O programa é desenvolvido em diferentes etapas, convidando profissionais da educação, estudantes das escolas do ensino médio da rede pública de ensino do estado do Ceará e seus familiares a fortalecer, ampliar e aperfeiçoar informações científicas verdadeiras sobre a valorização da vida com ênfase na prevenção ao uso/abuso de drogas.

A metodologia das ações do Juventude em Ação tem um caráter interativo em que todos são convidados a participar ativamente, expandido a consciência do cuidado consigo mesmo e com o outro, além das descobertas de ações/estratégias eficazes que contribuem para a valorização da vida, sem subestimar os fatores de risco existentes.

O programa se desenvolve a partir de um jogo, em que o avanço de cada casa no tabuleiro corresponde a mais uma reflexão sobre a dinâmica do macro contexto das drogas lícitas e ilícitas, perpassada pelas opiniões dos jogadores, num exercício dialógico e cooperativo. Isso permite que a troca de experiências oriente raciocínios, permitindo a elaboração de sínteses baseadas nas circunstâncias singulares de cada universo social.

Os frutos da vivência com o jogo são multiplicados através da realização de trabalhos artísticos em várias linguagens estéticas, tais como: música, dança, vídeo e fotografia.  Esse exercício valoriza as potencialidades de expressão dos estudantes, encorajando-os a se tornarem sujeitos proativos e colaborativos na definição dos caminhos pessoais e coletivos.

Os trabalhos artísticos expressam o universo cultural de cada comunidade, e, por isso, traduzem seus saberes, práticas e sentimentos próprios. Assim, eles são revestidos de um valioso poder para compartilhar conhecimentos, perpetuando a compreensão e a reflexão sobre o movimento e as sutilezas da valorização da vida com destaque para a relevância das suas diferentes dimensões, são elas: a integridade física, o desenvolvimento emocional saudável, a sociabilidade e o pertencimento grupal, a participação cidadã na vida da comunidade, e ainda as perspectivas futuras.

A multiplicação dos conhecimentos sobre a prevenção ao uso de drogas ganha amplitude com a criação de grupos de mobilizadores sociais, capacitados para desenvolverem ações de conscientização na comunidade do entorno dos “Ciclos de Mobilização Comunitária pela Prevenção ao Uso de Drogas” e passeatas. O tempo de duração do programa nas escolas é de aproximadamente 6 meses.

O período de testes do programa foi de 1988 a 2013. Nesse período, as atividades experienciadas, apreciadas e avaliadas em diferentes contextos tiveram o propósito de apoiar e incentivar os adolescentes no desenvolvimento socioemocional para responder aos desafios do cotidiano com autonomia, autoconfiança e, ainda, fortalecer a rede de apoio formal e informal no desenvolvimento da consciência do cuidado pessoal e coletivo na direção da valorização da vida.

Em 2015, o Sistema Integrado de Prevenção (SIP) da Secretaria Especial de Políticas sobre Drogas do Ceará implanta o programa Juventude em Ação, abraçando o conjunto de ações. Essas ações incluem oficinas temáticas, a prática do jogo “Na trilha da prevenção”, concurso artístico cultural, passeatas, vivências reflexivas, multiplicação do saber, habilidades de vida para a vida, além de outras, voltadas para os estudantes do Ensino Médio, sinalizando que a valorização da vida, nas suas diferentes dimensões, demanda recursos/ativos de proteção que vão além da aquisição de conhecimentos científicos. Em outras palavras, não basta conhecer, é preciso saber fazer, sabendo o que se faz, de acordo com o que se acredita, e aproveitando ao máximo as habilidades que contribuem para ativar os fatores de proteção que realçam a vida.

O programa também insere pessoas da família e próximas aos alunos (pais e outros adultos que sejam responsáveis pelo acompanhamento, ou que desempenham um papel de referência, cuidado e responsabilidade na vida do estudante) e a comunidade do entorno, convidando a todos a admitirem que somos seres individuais, porém interdependentes (influenciamos e somos influenciados pelo mundo), podendo constituir uma aliança de cooperação na direção da valorização da vida.

Em todas as etapas do programa, a rede de apoio formal e informal participa, a partir da sua disponibilidade, com realce para a saúde e a assistência social.

O conjunto de ações que integra o programa hoje são sustentadas por 5 pilares teóricos: o enfoque sistêmico, a teoria da comunicação, a antropologia cultural, a pedagogia de Paulo Freire e a resiliência.

A partir de 2018, o programa passou a integrar a Política de Desenvolvimento de Competências Socioemocionais do Governo do Ceará, iniciativa coordenada pela Secretaria de Educação do Estado (Seduc), juntamente com outras ações: Núcleo de Trabalho, Pesquisa e Práticas Sociais (NTPPS); Projeto Professor Diretor de Turma (PPDT); Psicólogos Educacionais; Mediação Social e Cultura de Paz; Educação, Gênero e Sexualidade na Escola; Aprendizagem Cooperativa; Comunidade de aprendizagem; Projeto de Vida e Mundo do Trabalho.

O Programa Juventude em Ação não faz distinção entre aqueles que estão em situação de maior ou menor risco e vulnerabilidade. Nessa direção, toda a comunidade pode beneficiar-se das ações do programa (Prevenção Universal), que se propõem a incentivar/apoiar os estudantes do ensino médio da rede pública de ensino do Ceará no desenvolvimento de competências para responder aos desafios  do dia a dia, com atitudes proativas e cidadãs, acreditando que é possível superá-los, com confiança, segurança e persistência, preservando a vida com autonomia e autoconfiança.

O Juventude em Ação parte do princípio de que os desafios do cotidiano podem ser pensados e refletidos e, dessa atitude, surgem estratégias criativas e transformadoras que auxiliam as pessoas na superação dos problemas. A questão posta é: as fragilidades fazem parte da vida humana, todos nós passamos por dores e angustias, a diferença está na maneira com lidamos com elas.

A seleção das cidades que recebem o programa inclui critérios como contar com um Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas (COMPOD) implantado e ativo, e os indícios de vulnerabilidade social. Quanto às escolas, o programa é apropriado, porém não exclusivo, para escolas do ensino médio de tempo integral ou profissionalizante, e que apresentem indícios de grave vulnerabilidade.

A partir desses critérios, a gestão escolar das escolas do ensino médio da rede pública de ensino do estado do Ceará das cidades selecionadas, são convidadas a conhecer a proposta do programa, e podem optar por desenvolve-lo ou não.

A implantação do programa é optativa como uma proposta para transpor um perfil assistencialista, em que um grupo externo chega na escola com a missão de salvadores da pátria para eliminar os fatores de riscos existentes ao uso/abuso de drogas. Todo processo de mudança e transformação pede o envolvimento dos participantes: sair da omissão, da posição de expectador para assumir a responsabilidade de sujeito histórico.

Como exemplo, no município do Eusébio, situado na região metropolitana de Fortaleza, com o apoio da coordenação da saúde mental, também foi realizado uma formação em Terapia Comunitária Sistêmica Integrativa para 24 agentes comunitárias de saúde durante a implantação do programa na Escola Estadual de Ensino Profissional Eusébio de Queiroz.  A partir dessa capacitação 8 rodas de Terapia Comunitária semanais eram realizadas em diferentes espaços públicos da cidade, viabilizando expressar as suas preocupações e sofrimentos do dia a dia, de forma horizontal e circular e, ainda, partilhar estratégias de solução, a partir das próprias experiências vividas, numa convivência respeitosa a todos. Essa experiência mostra que a Integração entre os setores da gestão pública, trazem resultados significativos para a promoção da saúde, transpondo a ideia de qualidade insatisfatória dos serviços públicos.

Vale ressaltar que, a partir dessa experiência, a gestão municipal de Eusébio entregara à população em 2019 a “Escola da Promoção da Vida”. Um espaço para desenvolver ações de prevenção aos diferentes desafios do cotidiano, que colocam em risco a vida na rede municipal de ensino, além de atividades para cuidar de quem cuida: gestores, professores, demais profissionais e familiares dos estudantes. A educação, saúde, assistência, cultura e esporte estão integradas nessa inciativa de construção coletiva de aditivos protetivos as circunstâncias que fragilizam a vida.

 

Lições aprendidas

São muitos os fatores de vulnerabilidade que expõem os adolescentes a riscos do consumo abusivo de drogas lícitas e ilícitas, sinalizando a necessidade de criar e manter uma política de prevenção ao uso/abuso de drogas nas escolas que leve em consideração as dificuldades vivenciadas pelos profissionais da educação, estudantes e seus familiares, e que envolva diferentes atores da rede de apoio formal e informal, constituindo uma ciranda de cooperação para a implantação de ações intersetoriais.

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