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Projeto Bolsa Verde: alternativas e alternatividades para a promoção da saúde no território

Autores do relato:

Juliana Gonçalves Silva de Mattos julianamattoscoro@gmail.com 3498240596

Larissa Isaura Gomes psicologa.larissa.isaura@hotmail.com 3498122400

Contextualização

No interior de Minas gerais, na região do Alto Paranaíba, Coromandel, uma cidade de aproximadamente 30 mil habitantes é reconhecida nacionalmente por sua cultura, produção de queijos e bacia da extração diamantes. O projeto ““Bolsa Verde”” nasceu das dificuldades observadas pela equipe do Programa Melhor em Casa quanto às questões alimentares e nutricionais dos pacientes assistidos, inferindo diretamente no contexto social e psicológico. Assim, após o alinhamento de ideias com vários setores públicos e, posteriormente a instituição de Ensino Superior da cidade e a Câmara de Vereadores emergiu esse Projeto com o intuito de auxiliar no déficit alimentar dos pacientes e familiares, ser pilar de orientação e educação em saúde, facilitar o acesso às verduras e legumes, tornar rotina um hábito alimentar saudável, aumentar o vínculo dos pacientes com os profissionais de saúde além de melhorar a adesão aos tratamentos propostos. O Programa Melhor em Casa, implantado no município em Maio de 2020, composto por uma equipe multiprofissional de atenção domiciliar (EMAD) e de apoio (EMAP), objetiva realizar atendimento domiciliar de pacientes desospitalizados em agudização e/ou assistência direta (tratamentos com antibioticoterapia e soroterapia, curativos especiais, assistência de enfermagem, médica, de nutricionista, psicóloga, assistência social e fisioterapia), garantindo a continuidade de uma assistência de qualidade. A média de cadastros individuais no programa em 2020 foi de 95 pacientes. Em estudo realizado em Novembro de 2020 quanto ao perfil dos pacientes atendidos no Programa em Coromandel, percebeu-se que a maioria dos cadastrados eram mulheres (57,14%) com média de idade de 61,8 anos, com renda individual média de R$ 1.386,72 e renda média familiar de R$ 2.960,50, residindo em casa (80,4%) própria (60,8%), com boas condições de higiene (46,7%), com rede de água e esgoto (82,6%), com ventilação adequada (81,5%), iluminação natural (71,7%), rede elétrica (79,3%) e água filtrada (78,2%). A maioria não possui convênio médico particular (68,4%) e possuem ensino fundamental incompleto (43,4%). A média de tempo de permanência é de 40,2 dias (COSTA; MATTOS, 2020). O município conta com um espaço aberto, localizado na zona rural, em anexo a um bairro de vulnerabilidades consideráveis. Esse espaço conta com aproximadamente cinco hectares agricultáveis, sendo utilizado nesse momento de em torno de um hectare para a produção dos alimentos. Esses alimentos são cultivados sob a forma orgânica, utilizando apenas o controle biológico para combate às pragas, conferindo um aspecto de agricultura sustentável e de sistemas alimentares que contribuem para a saúde e segurança alimentar e nutricional da população com vulnerabilidade social, econômica e pessoal.

Justificativa

Diante do contexto do atendimento domiciliar, e reconhecendo que as necessidades financeiras e alimentares dos pacientes se agravavam com o desenrolar da pandemia no município, verificou-se a possibilidade de aproveitamento de áreas abertas vinculadas aos serviços públicos municipais para auxiliar na alimentação dos pacientes, fator esse diretamente relacionado à promoção da saúde dos territórios. Ainda, sabe-se que as ações de educação alimentar e nutricional que visam a corresponsabilização dos indivíduos e a facilidade de acesso dos mesmos a esses alimentos são fatores que inferem diretamente no consumo rotineiro, promovendo a consciência da importância do consumo de alimentos saudáveis e valorização da cultura alimentar.

Objetivo

Facilitar o acesso e incentivar o consumo saudável da população vulnerável, atendida pelo Programa Melhor em Casa com legumes e verduras sem agrotóxico, melhorando a opção alimentar e promovendo a saúde dos beneficiários e suas famílias.

Metodologia

Os pacientes atendidos pelo Programa Melhor em Casa, visto suas necessidades alimentares após atendimento da equipe multiprofissional foram selecionados para receber semanalmente um kit de verduras/legumes produzidos na horta comunitária, através do Projeto “Bolsa Verde”. A equipe semanalmente realiza a busca desse alimento, segregação dos kits e entrega em domicílio. Os pacientes beneficiados são acompanhados pelo Programa para verificação do bom uso do alimento e dos benefícios para os mesmos. Assim, a nutricionista do programa auxilia na educação alimentar orientando quanto a higienização dos alimentos e como podem ser preparados e apresentados de forma mais nutritiva e atraente, estimulando o autoconsumo.

Atores envolvidos (institucionais e/ou coletivos)

– Programa Melhor em Casa da Gestão Municipal de Saúde – Setor Psicossocial da Gestão Municipal de Saúde – Secretaria de Agricultura, – Cursos de Agronomia e Psicologia da Faculdade Cidade de Coromandel, – Câmara de Vereadores.

Estratégias

– Reunião intersetorial para identificação das situações e definição de metas, além de distribuição de tarefas. A Secretaria de Agricultura junto a equipe do Curso de Graduação em Agronomia foram responsáveis pela preparação da terra, plantio e manutenção da hortaliça, assim como a colheita e preparação para distribuição. O Programa Melhor em Casa foi responsável pela seleção do pessoal segundo critérios pré-estabelecidos, como índice de massa corporal, renda familiar, disponibilidade de consumo, e número de pessoas residentes na mesma residência. Ainda, auxiliou na dispensação para os pacientes, realizando as orientações e o acompanhamento das famílias. A Câmara de Vereadores apoiou com a divulgação do Projeto, aquisição das mudas e sementes para o plantio.

Resultados alcançados

Espera-se com esse projeto facilitar o acesso de pessoas em vulnerabilidade social e de saúde ao consumo de alimentos saudáveis, estimulando-os a autopromoção de sua saúde por meio da autorresponsabilidade. Desse modo, os objetivos desse projeto foram alcançados com sucesso. Na primeira e segunda edição do Projeto, em 2020 e 2021, respectivamente, foi possível atender 40 famílias por um período de 4 meses. Contudo, ainda há fatores que precisam de melhorias, como a ampliação da extensão de plantio e de estratégias sustentáveis para auxiliar na produção contínua dos alimentos durante todo o ano podendo aumentar o número de famílias beneficiadas.

Considerações finais

A experiência construída coletivamente mostra-se relevante na medida em que evidenciou o quanto a intersetorialidade constitui uma estratégia potente para o alcance de resultados eficazes e eficientes voltados para a promoção da saúde nos territórios. O Projeto “Bolsa Verde” para além da dimensão nutricional contempla e repercute outras facetas da dimensão humana, com destaque para a saúde mental das populações, uma vez que tal medida: a entrega de verduras e legumes para as famílias em contexto de vulnerabilidade social e econômica possibilita o fortalecimento de vínculos entre os profissionais, os pacientes e suas respectivas famílias, além de interações para além da dimensão estritamente clínica. O envolvimento e o reconhecimento dos parceiros externos potencializam a rede de construção do cuidado, uma vez que vários atores sociais podem se unir em prol do desenvolvimento comunitário. Projetos dessa natureza, se desenvolvidos de maneira intermitente, podem propiciar benefícios diretos para a população em situação de vulnerabilidade, além de serem estendidos para as instituições públicas que ofertam serviços e ações para seus respectivos público-alvo. A promoção da saúde nos territórios está intimamente correlacionada à capacidade de estruturação do pensamento coletivo, fundamentado na intersetorialidade, reafirmando a possibilidade de construção do cuidado pela via da implementação de estratégias que primam pela qualidade de vida e integralidade do desenvolvimento humano.