APSREDES

PRÁTICAS DISRUPTIVAS NA PROMOÇÃO DE ESCOLHAS ALIMENTARES SAUDÁVEIS: USO DE FERRAMENTAS DIGITAIS

Autores do relato:

ADRIANA PRESTES DO NASCIMENTO PALÚ adrianapnpalu@gmail.com 43) 99973-304

LUANA CAROLINE TREUK DA SILVA luanactreuk@gmail.com 43) 99913-697

LUCAS GUSTAVO PAPARAZZO ef.apucarana@gmail.com 43) 99900-200

ANGÉLICA FERREIRA DOMINGUES nutriangelicaferreira@hotmail.com (43) 99621-8542

Contextualização

O município de Apucarana/PR conta com uma população total de 136.234 habitantes, segundo projeção do IBGE no ano de 2.020, dos quais 128.550 hab. (94,36%) vivem na zona urbana, contra 7.684 (5.64%) que vivem na zona rural, caracterizando como uma população extremamente urbana. Os serviços de Atenção Primária oferecidos à população são distribuídos por 28 Unidades de Saúde da Família, 42 equipes da Estratégia Saúde de Família, 06 Unidades Básicas de Saúde e 01 Unidade Central, tendo 100% de cobertura de Estratégia Saúde da Família. A Unidade de saúde para a aplicação do projeto de intervenção possui duas equipes de saúde da família, com população estimada de 6.126 (e-gestor, 2021), predominantemente de adultos e idosos, sendo um território com marcante influência na história local e com mobilizações sociais, políticas e religiosas. Dentre os principais agravos enfrentados no território, destacam-se as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), onde os aspectos comportamentais, incluindo hábitos alimentares, tem importante impacto nos resultados de proteção e promoção da saúde.

Justificativa

A pandemia exigiu mudanças nas rotinas das pessoas e o distanciamento social foi uma das medidas adotadas para a contenção da propagação viral. A orientação para permanência em casa fez surgir novas experiências virtuais e incrementou outras, assim, para dar continuidade ao trabalho de educação nutricional em época de distanciamento social, foi estruturado um grupo remoto em ambiente virtual, para desenvolvimento de ações de educação e vigilância em saúde, a qual se tornou uma ação inédita e atípica (disruptiva) no contexto local. É notória a mudança na sociedade, com um número cada vez maior de pessoas conectadas e com acesso crescente às tecnologias e à Internet. Mesmo não acontecendo de forma homogênea, o acesso e a produção de informações tem sido de forma intensa, rápida e coletiva, configurando novos cenários de práticas em saúde. A pandemia alavancou a necessidade destes atores, que trafegam à luz dos dados e informação em saúde, considerarem esse novo movimento em suas premissas, pesquisas e práticas de saúde coletiva, culminando na proposição desta ação.

Objetivo

Desenvolver ações de educação nutricional e vigilância em saúde num ambiente virtual, com emprego de ferramenta digital (grupo de WhatsApp®) e identificar, na percepção dos participantes, as potencialidades e as fragilidades desta prática disruptiva na promoção de escolhas alimentares saudáveis e comportamentos positivos.

Metodologia

Tratou-se de uma vivência em território, coordenada por uma nutricionista residente em atenção básica/saúde da família, no projeto de grupo no WhatsApp® voltado à educação nutricional e vigilância em saúde, em época de isolamento social devido à pandemia do COVID-19. Desenvolvido no município de Apucarana, Paraná, iniciado em julho de 2020, por períodos de trinta dias, cada grupo, totalizando 20 participantes por grupo. Na execução do projeto definiu-se o público alvo e o calendário editorial, que consistiu na agenda de publicações e conteúdos, enviados diariamente no grupo. Os participantes aderiram por demanda espontânea, mediante a divulgação na Unidade Básica de Saúde (UBS) com o mote “30 dias com a Nutri”. Inicialmente foram pactuadas as regras de convivência (postagens, respeito, horários, etc.) e apresentadas as temáticas a serem trabalhadas com o grupo. Sendo elas: Proposta número 1: Apresentação do Guia Alimentar para a população brasileira Método: Iniciou-se com uma pergunta disparadora sobre como eles achavam que deveria ser uma alimentação saudável, provocando o debate sobre o consumo de alimentos saudáveis e naturais, os fatores que influenciam as escolhas, as motivações, a representação da adoção de frutas, legumes e verduras em sua alimentação. Após a interação dos participantes, foi enviado um material em vídeo sobre o Guia Alimentar para a população brasileira, enfatizando a sua importância para o desenvolvimento do grupo. Proposta número 2: Fatores que influenciam a perda de peso Método: Apresentou-se um esquema em formato de imagem com fatores inter-relacionados e dinâmicos sobre os fatores que influenciam a perda de peso, sendo eles: composição corporal, oferta de alimentos, composição da dieta, recursos econômicos, medicamentos, genética, microbiota intestinal, hormônios, resistência à insulina, metabolismo, religião e cultura, saciedade, idade e comportamento, e em seguida a explicação do mesmo via áudio. Proposta número 3: Importância da ingestão adequada de água Método: Os participantes receberam um vídeo autoral contendo informações relevantes sobre ingestão hídrica, como a razão de aparecer a sede, análise da coloração da urina, cálculo da quantidade de água que cada um deve beber, benefícios e estratégicas para aumentar a ingestão. Solicitou-se como primeiro desafio tomar a quantidade ideal de água e mandar fotos no grupo. Proposta número 4: Fibras Método: Enviado material diverso, contendo áudios, textos e imagens explicando o que são fibras, quais as funções das fibras e exemplos de alimentos que são ricos em fibras. Ao aumentar o seu consumo, enfatizou-se a importância da ingestão hídrica. No segundo desafio, solicitou-se a inclusão de no mínimo 2 porções de frutas diferentes no dia e socialização das escolhas com a postagem de fotos no grupo. Proposta número 5: Vegetais que podem ser consumidos à vontade Método: Postou-se uma imagem ilustrativa com alguns vegetais e suas calorias com o objetivo de mostrar como o consumo deles quase não impactam na quantidade calórica diária, explicou – se que eles apresentam baixa densidade energética, promovendo mais saciedade ao aumentar suas quantidades ingeridas, além de serem fontes de vitaminas e minerais que são essenciais para imunidade e prevenção de doenças. Nesse dia os participantes foram desafiados a incluir vegetais no almoço e no jantar, podendo ser cozidos ou crus. E como complemento da temática semanal consumir um prato de salada antes de montar o prato principal, para assim promover saciedade e consequentemente colocar menos comida no prato. Proposta número 6: Como montar um prato saudável? Método: Enviado material ilustrativo e sua explicação via áudio. Um prato saudável deve ser composto por 50% de vegetais cozidos e crus, 25% de proteínas, sendo proteína vegetal e animal, e 25% de carboidratos. Foi explicado sobre a importância da Vitamina C no momento da refeição para a absorção do ferro vegetal. Como forma de motivação, os participantes foram convidados a enviar no grupo, as fotos de suas refeições. Proposta número 7: Receita Método: Foi elaborado um vídeo autoral ensinando como preparar uma crepioca e suas variações com legumes e proteínas. Compartilhando as experiências do grupo na percepção de novos sabores e elaborações. Proposta número 8: Reduzir o consumo de óleo, gordura, sal e açúcar Método: Enviou-se um vídeo produzido pela SAPS – Secretaria de Atenção Primária à Saúde, sobre alimentos processados e óleo, gordura, sal e açúcar. E para complementar foram informados sobre o parâmetro usado para a quantidade ideal de óleo em uma família composta por 4 pessoas. Quarto desafio foi evitar as frituras. Proposta número 9: Reduzir alimentos ultraprocessados, meta avançada de refletir sobre a mudança que a eliminação deste tipo de alimento pode favorecer na qualidade de vida dos participantes do grupo Método: O vídeo enviado foi produzido pela SAPS – Secretaria de Atenção Primária à Saúde, sobre alimentos ultraprocessados, vídeo debate com a problematização sobre o tipo de alimentos que existiam no armário dos participantes, alertando sobre evitar comprar para não se ter disponível em casa, em seguida enviou-se uma ilustração com a mensagem “desembale menos e descasque mais!”, estimulando o consumo de alimentos naturais, como frutas, legumes e verduras. Quinto desafio foi a redução do consumo de alimentos ultraprocessados. Proposta número 9: Leitura de rótulo Método: O vídeo autoral enviado aos participantes orientou os cuidados ao comprar um alimento processado, contendo informações sobre leitura de rótulos e alimentos falsos saudáveis. Reflexão potente no grupo sobre as manipulações que as propagandas fazem para escolhas prejudiciais à saúde das pessoas. Proposta número 10: Dieta no final de semana Método: Material em forma de texto sobre ter consciência ao se alimentar quando chega o fim de semana, priorizando o equilíbrio. Proposta número 11: Receita para incentivar o consumo de sucos naturais Método: Foi enviado um vídeo sobre como fazer um suco verde e desmistificou-se os sucos detox. Proposta número 12: Alimentos light e diet Método: Foi enviado um vídeo contendo a explicação desses produtos e suas diferenças. Proposta número 13: Temperos industrializados Método: Texto explicativo sobre os malefícios dos temperos industrializados e enviou-se uma receita de sal de ervas para uso em legumes, etc. Proposta número 14: Temperos naturais Método: Utilizou-se imagens com sugestões de temperos naturais para o preparo de aves, peixes e carnes. Proposta número 15: Receita Método: Vídeo autoral de sugestão de lanche: Pudim de chia, com incremento de frutas, em seguida enviou-se as propriedades nutricionais da chia. Proposta número 16: Açúcar Método: Vídeo produzido pela SBAN – Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição sobre açúcares. Debate sobre as experiências e percepções das participantes. Orientação sobre a presença de açucares complexos em diversos alimentos naturais, como nas frutas (frutose), no leite (lactose), etc. Em seguida orientou-se sobre a redução do açúcar para a mudança do paladar. Proposta número 17: Dicas para as refeições principais Método: Foi enviado algumas dicas importantes sobre as refeições principais, como colocar a salada em um prato a parte, comer a salada primeiro, aumentar a porção de verduras e legumes e reduzir o carboidrato, não esquecer da proteína. Estratégias criativas que estimulam adoção de hábitos saudáveis. Proposta número 18: Motivos para não cortar o carboidrato Método: Lista com oito benefícios do carboidrato para o organismo e explicando que não se deve retirar nenhum grupo alimentar da dieta. Proposta número 19: Receita Método: Foi enviado uma receita de biscoito de chia. Proposta número 20: Bebida alcoólica Método: Foi enviado através de imagens ilustrativas a quantidade de calorias que cada bebida alcoólica possui, juntamente com um texto explicativo. Proposta número 21: Receita Método: Foi enviado um vídeo com 3 ideias fáceis de lanche da tarde. Proposta número 22: Marmitas saudáveis congelada Método: Foi explicado por meio de texto sobre a praticidade de se congelar a comida para a semana toda e qual utensílio utilizar para tal finalidade e também foi enviado vídeos de como realizar a montagem das marmitas e o congelamento. Proposta número 23: Fome emocional e fome fisiológica Método: Imagens ilustrativas com as diferenças de fome emocional e fome fisiológica e também um vídeo explicando sobre o comer consciente. Encerramento: Foi enviado uma ilustração de um quadro comparativo com o seguinte título “Onde está a sua evolução?” Explicou-se que a evolução não pertencia apenas a perda de peso e sim a promoção de uma qualidade de vida com boas escolhas e a mudança de hábitos. Destacou a trajetória terapêutica que muitos participantes vivenciaram, especialmente na adoção de uma alimentação balanceada, exercício físico, hidratação adequada e intestino saudável, qualidade do sono, e outros fatores na promoção da saúde. O grupo ocorreu de maneira dinâmica, os conteúdos antes de serem postados eram contextualizados e os participantes também enviavam dúvidas e fotos da rotina alimentar.

Atores envolvidos (institucionais e/ou coletivos)

A coordenação do projeto foi desempenhada pela nutricionista residente do Programa de Residência em Atenção Básica/Saúde da Família, com a colaboração de outros profissionais residentes e da Estratégia Saúde da Família, da referida UBS, supervisionados por seus tutores de referência. Os participantes foram usuários do serviço de saúde pública, moradores da área adscrita à UBS, predominando do sexo feminino e acima de 40 anos.

Estratégias

Para que os objetivos fossem alcançados, a oferta do grupo de Whats App foi a divulgação com materiais visuais na recepção da UBS e nos convites realizados pelos profissionais da equipe, de forma remota por convites enviados por mensagem eletrônica, ligações e postagens nas mídias sociais. Durante o desenvolvimento do projeto, a dinâmica de participação contínua, troca de opiniões, vivências e sentimentos, proporcionou a permanência dos participantes durante todo o período do projeto. Outro ponto importante foi a rede de apoio entre os profissionais da UBS, seja no apoio técnico com a ferramentas digitais, com a produção de conteúdos e práticas, como na inserção do tema transversalmente às outras atividades multiprofissionais, estimulando a participação da comunidade.

Resultados alcançados

O desenvolvimento de um grupo no WhatsApp® para educação nutricional em um período de distanciamento social foi a alternativa encontrada para continuar com o trabalho que antes era desenvolvido em grupos presenciais. A nova estratégia conseguiu atender parte da população que tinha interesse pelos serviços de nutrição da UBS e acesso às ferramentas digitais. O grupo atuou como uma estratégia de educação alimentar e nutricional, sendo uma ferramenta para auxiliar os usuários no reconhecimento dos obstáculos, auxiliando no planejamento da alimentação e das escolhas alimentares mais saudáveis, assim como na elaboração de estratégias para superar as dificuldades, valorizando a importância da alimentação para a saúde. Dessa forma, as mudanças de hábitos de vida podem ser dolorosas e lentas, especialmente as alimentares. O que se deve ao fato de a alimentação envolver fatores diversos e complexos como comportamentais, culturais, sociais, econômicos e geográficos. Contudo, os conteúdos enviados alcançaram resultados satisfatórios e produtivos, de acordo com os feedbacks recebidos dos participantes, como ilustra a fala da participante 1.A: “Foi muito importante para mim nunca tinha me esforçado tanto e levado a diante todos os ensinamentos como fiz esse último mês assim houve dias que permiti comer o que estava com vontade mas o que mais me surpreendeu foi o quanto a boa alimentação me ajudou na questão da minha ansiedade resumindo foi um aprendizado que de fato p mim foi uma mudança de hábitos total mesmo, gente ainda estou me esforçando em relação a água que é difícil p mim mas no restante só tenho a te agradecer nutri foi uma experiência incrível. PS: 3 kg a menos e é só o começo” Alguns desafios percebidos: acesso à internet e celulares, embora essa tecnologia tenha se popularizado, a vulnerabilidade socioeconômica exclui muitos indivíduos. Outro fator é o letramento digital, os jovens não apresentaram dificuldade, mas à medida que avança a idade, existem limitações para o uso das ferramenta digitais, algumas vezes dribladas com a colaboração de familiares e amigos nas postagens das fotos. Por se tratar de uma experiência inédita, no contexto local, não havia segurança sobre o alcance dos objetivos no desenvolvimento do projeto. A partir do primeiro grupo verificou-se que esta estratégia pode complementar as demais ações de educação e vigilância em saúde, bem como ampliar sua aplicação em outros temas, facilitando o contato da equipe de saúde com os usuários, especialmente em apresentar informações seguras e fundamentadas em evidências científicas, evitando a propagação de informações falsas.

Considerações finais

Cada vez se torna mais evidente as mudanças que acontecem na sociedade, com impacto na saúde das pessoas. Os comportamentos são reflexo de uma construção social, cultural e histórica, que demandam esforços conjuntos dos atores que se envolvem na promoção da saúde. Hábitos alimentares que incluam o consumo de frutas, legumes e verduras, vão além da influência na qualidade de vida dos indivíduos, também impactam nas relações de produção, no equilíbrio ambiental, na ressignificação das necessidades fundamentais. O emprego de ferramentas digitais aponta uma mudança de paradigma dentro da saúde pública, na comunicação e educação, na produção de informações e cuidados, mesmo se desconhecendo todos os benefícios, riscos e transformações que essas inovações disruptivas trazem para nosso contexto. Esta experiência aponta a satisfação dos participantes em receber orientações referentes à alimentação saudável, bem como na oportunidade de compartilhar suas dificuldades e angústias, que envolvem o cuidado da própria saúde, especialmente neste período de pandemia. Sinaliza uma nova estratégia para se comunicar, impulsionar hábitos saudáveis e fortalecer vínculos com a equipe de profissionais da UBS. Ao mesmo tempo, desperta novos olhares propositivos e, sobretudo, disruptivos, a fim de ampliar o rol de instrumentos para a prática da saúde pública. Porém, são necessárias outras pesquisas que respondam indagações sobre a adesão, o acesso, a regulação destas tecnologias para seu funcionamento dentro de preceitos éticos, que assegurem a privacidade dos usuários, contribuam com o interesse público e melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.