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A integração de diferentes setores da sociedade, a cooperação entre gestores e o envolvimento da comunidade no planejamento e na organização dos serviços despontam como soluções para o enfrentamento à Covid-19 no Brasil. Desafiados pela crise sanitária, os profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) remodelam a forma de trabalhar e percebem que muitas das inovações, implantadas de forma emergencial para responder à pandemia, vieram para ficar. 

Nesta quinta-feira (23/07), durante a live que abordou O protagonismo da APS nos comitês e planos de enfrentamento da pandemia, foram apresentadas experiências desenvolvidas no Mato Grosso do Sul e nos municípios de Pelotas- RS e Lagoa Santa –MG. As iniciativas estão entre os mais de 1,6 mil cases inscritos na seleção APS Forte no Combate à Pandemia, promovida pela Organização Pan-Americana da Saúde e pelo Ministério da Saúde.

O oficial especialista de Sistemas e Serviços de Saúde da OPAS/OMS Brasil, Fernando Leles, moderador do debate, observou que as experiências demonstram que a integração e a cooperação rompem com a fragmentação dos serviços. “Estas iniciativas podem gerar uma ação pública interdisciplinar e intersetorial, que atenda não apenas às demandas do processo saúde-doença, mas também abarque determinantes sociais da saúde.”

As experiências envolvem diversos atores, em diferentes níveis de cooperação, levando a uma gestão colaborativa, solidária, cooperativa e participativa. “Observa-se a inclusão da participação social de uma forma ativa, em que a população não é apenas alvo da ação da saúde, mas também está envolvida no planejamento e organização dos serviços, para que atendam melhor às peculiaridades dos diversos territórios”, salientou Leles.

O oficial ressaltou dois aspectos presentes nas iniciativas: o acesso relacionado às novas necessidades trazidas pela Covid-19, e também a manutenção da atenção às demais necessidades, o que é fundamental para o enfrentamento da pandemia. “Aqueles países que tiveram um fortalecimento da APS, mantendo a centralidade da Atenção Primária na rede de atenção à saúde, tiveram melhor desempenho na resposta a esta emergência de saúde”.

A debatedora, Michelle Fernandez, professora e pesquisadora do IPOL/UNB, destacou cinco papéis da APS no enfrentamento à covid-19: educação em saúde, conexão com a vigilância epidemiológica, suporte aos grupos vulneráveis, continuidade das atividades e assistência aos pacientes com sintomas leves. 

Fernandes afirmou que algumas rotinas serão mantidas no pós-Covid, como o teleatendimento. Para a pesquisadora, o grande legado da pandemia será o atendimento a distância. A tendência, segundo ela, é de que sejam mantidos todos os equipamentos de atendimento a distância que estão sendo implementados no enfrentamento à Covid-19. “A utilização de tecnologias de informação que, até quatro meses atrás, era algo longínquo nas estratégias das políticas públicas de saúde, agora é algo real, e parece que vai ser bem difícil retirá-la da nossa rotina, porque traz uma dinâmica que o atendimento presencial não tem”.  

Em relação ao distanciamento social, a professora da UNB destacou a importância dos chamados Equipamentos de Proteção Coletivos (EPCs), em paralelo aos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).  Os EPCs são soluções voltadas a zonas de vulnerabilidade nas cidades brasileiras. “Onde o aglomerado de pessoas na mesma casa dificulta o isolamento dos contaminados, lugares adequados para o distanciamento fora das casas, nas periferias urbanas, são uma possível solução para o distanciamento social em ambientes em que ele não é possível”.

 

Integração com universidades 

 

Pelotas, um dos municípios mais populosos do Rio Grande do Sul, com mais de 341 mil habitantes, precisou repensar a gestão na APS para enfrentar a pandemia, criando um comitê formado pela Secretaria Municipal de Saúde e pelas duas principais universidades da região. Das 50 Unidades Básicas de Saúde, seis estão sob a gestão da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e quatro estão sob a gestão da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

O principal foco do comitê é o fortalecimento da APS como estratégia para evitar agravamento de condições crônicas dos pacientes. Para prevenir a sobrecarga da atenção hospitalar, o grupo identificou limitações e potencialidades das instituições e dos serviços, buscando o monitoramento e a prevenção de doenças crônicas e síndromes gripais.

Os gestores avaliaram pontos como a organização do atendimento evitando cruzamento de pacientes, a manutenção de vínculo usuário-equipe, o atendimento de outras demandas além da Covid-19, o acompanhamento de pacientes crônicos, a otimização de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e a capacitação das equipes.

A partir desta análise, o comitê entendeu que a melhor estratégia seria dividir o atendimento em dois turnos, reservando a manhã para os pacientes com síndromes gripais e a tarde para outras necessidades de saúde. As Unidades receberam telefones celulares para monitoramento dos pacientes do grupo de risco ou com síndromes gripais, e as equipes foram capacitadas para o uso de EPIs.

Na avaliação da secretária municipal de Saúde Pelotas, Roberta Paganini Lauria Ribeiro, que apresentou a experiência, os principais resultados da iniciativa são a equidade, com a adoção do mesmo protocolo de organização dos processos de trabalho e serviços, e a qualidade obtida com o controle do sistema de saúde do município frente à pandemia. Segundo Ribeiro, Pelotas foi o último município brasileiro com mais de 200 mil habitantes a registrar óbitos pela Covid-19, mantendo-se sem nenhuma morte causada pela pandemia até 20 de junho.

APS FORTE - JUNTOS SOMOS MAIS FORTES E PODEMOS MAIS EM PELOTAS (RS)

Envolvimento da comunidade

O plano de resposta à Covid-19 de Lagoa Santa – MG serviu de referência para a reestruturação da APS no município. Desde o início da pandemia, as equipes se reorganizaram para dar continuidade ao atendimento, preservando o papel da Atenção Primária como eixo norteador da assistência no município.

A secretaria municipal de Saúde implantou, em março, um comitê técnico de enfrentamento à Covid-19, que optou por priorizar a continuidade de alguns serviços. Os atendimentos foram direcionados para estruturas diferenciadas. A atenção à saúde das gestantes, por exemplo, foi retirada das Unidades e realocada em uma estrutura exclusiva, reduzindo os riscos de contágio. 

Cada unidade de Saúde da Família passou a ter uma sala de isolamento para o atendimento de pacientes com suspeita de Covid-19. Todas as equipes foram capacitadas, tanto para atender os infectados, como para realizar o autocuidado.

A gestora de Projetos e Programas da APS, Maria Ivanilde de Andrade, considera que um dos maiores norteadores das ações foi a instituição do serviço de telemonitoramento, realizado por meio de um centro de atendimento remoto. Todos os casos identificados ou suspeitos são atendidos remotamente por uma equipe da Estratégia Saúde da Família (ESF). Quando necessário, a equipe vai até a casa dos pacientes para realizar coletas e testagens.

Andrade contou que as estratégias estabelecidas convergem para a educação social, considerada uma ferramenta indispensável no enfrentamento à pandemia, na medida em que envolve a comunidade no trabalho realizado pelas equipes de saúde.

APS FORTE - PLANO DE ENFRENTAMENTO À COVID-19 EM LAGOA SANTA (MG)

Encontros virtuais

A Secretaria de Saúde de Mato Grosso do Sul identificou, desde o início da pandemia, que os gestores focaram os esforços nos serviços hospitalares, com a ampliação e implantação de leitos de internação de UTI, em detrimento da organização das Unidades Básicas de Saúde. Conforme relatou a coordenadora de Ações em Saúde, Karine Cavalcante da Costa, alguns municípios do estado optaram pelo fechamento de UBS, centralizando os atendimentos.

Diante deste cenário, a Secretaria de Saúde buscou ferramentas de comunicação a distância para capacitação das gestões municipais quanto à organização dos serviços. Foram realizadas reuniões virtuais com todas as microrregiões do estado, para apresentação da versão 09 do Protocolo de Manejo Clínico para a Assistência à Covid-19, do Ministério da Saúde, e do Guia Orientador para o Enfrentamento da Pandemia Covid-19 na Rede de Atenção à Saúde, elaborado pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems). 

No município que era o epicentro da pandemia no MS, foram realizadas reuniões virtuais com cada equipe de Saúde da Família, para apresentação de protocolos e esclarecimento de dúvidas. Também foram distribuídos materiais informativos e seminários virtuais.

Conforme ressaltou Costa, com as ações desenvolvidas, foi possível oferecer medidas que objetivam o fortalecimento da Atenção Primária no contexto da pandemia, considerando que a APS é a porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) durante surtos e pandemias, e tem papel fundamental na resposta global à doença.

Os materiais elaborados pela Secretaria de Saúde do Mato Grosso do Sul estão disponíveis no site https://www.saude.ms.gov.br/coe/.

APS FORTE - APOIO À DISTÂNCIA À GESTÃO MUNICIPAL E ASSISTÊNCIA DA APS NO COMBATE À PANDEMIA

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