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Gerente da OPAS aborda as perspectivas de cooperação com Ministério da Saúde e a estratégia dos laboratórios de Inovação

Em entrevista ao Portal da Inovação, o gerente da área de Sistemas de Saúde da Opas Brasil, Félix Rigoli, fala sobre o momento de cooperação entre a Opas e o Ministério da Saúde e apresenta algumas propostas de trabalho para os Laboratórios de Inovações no próximo ano. Para ele, a Opas inova a cooperação técnica com o Brasil ao desenvolver a estratégia que destaca experiências desenvolvidas por profissionais de saúde. “A estratégia dos Laboratórios de Inovações é encontrar soluções que estão funcionando no setor saúde e propor maneiras de medi-las, analisá-las e verificar se são aplicáveis em outros contextos”, aponta Félix Rigoli.

Os Laboratórios de Inovações abordam temas relevantes para o desenvolvimento do SUS como: Atenção Primária em Saúde; sistemas logísticos nas Redes de Atenção; inclusão dos cidadãos na elaboração de políticas de saúde e; atenção às Doenças Crônicas. Cada Laboratório acompanha durante um ano as experiências selecionadas por meio de uma metodologia flexível, que segue três fases de desenvolvimento. Na fase preparatória ocorre a seleção do tema, a revisão bibliográfica e a formação do grupo de trabalho. Na fase operacional são selecionadas as experiências e práticas consideradas inovadoras, realizados ciclos de debates e escolhidos cases para serem analisados profundamente por meio de estudo de caso. A última fase é a dos resultados onde são sistematizadas e divulgadas as inovações.

Félix Rigoli espera reunir no próximo ano, por meio de um Laboratório, experiências sobre sistemas de saúde centrado no usuário. “A ideia é a de que os serviços de saúde devem estar voltados para as necessidades das pessoas, o conjunto do cidadão que tem problemas decorrentes de vários determinantes da saúde”, conta. Ele explica que essa proposta vem de encontro ao documento da Organização Mundial da Saúde para 2014-2019, que trata sobre people-centeredhealthservices. Leia abaixo a entrevista completa com o gerente da área de Sistemas de Saúde da Opas Brasil, Félix Rígoli.

1 – Qual a intenção da Opas ao trabalhar com Laboratórios de Inovação?

A ideia dos Laboratórios de Inovação surgiu de duas formas de pensar: a primeira, como uma tentativa de transformar as inovações do conhecimento tácito em explícito. Parte do pressuposto que a melhor forma de se fazer, não é a teórica, mas de acordo com o jeito que as pessoas encontraram para fazer. É destacar soluções que estão funcionando e encontrar maneiras para medi-las, analisá-las para saber se são aplicáveis em outros contextos.
O segundo pensamento é entender que em um país como o Brasil a Opas não detém o conhecimento técnico, específico, mas tem a capacidade de encontrar quem tenha essa expertise. O SUS – um sistema universal, com forte componente de atenção primária e com expansão muito rápida – está criando soluções para outros países que querem investir no sistema universal de saúde baseado na atenção primária. O que a Opas quer fazer é conceber o SUS como um conjunto de laboratórios inovadores, por meio de experiências de diversos atores que estão fazendo o SUS progredir. A Opas quer reunir essas riquezas de conhecimento, para difundir no Brasil e fora do país. Não partimos do pressuposto que a Opas tem a solução, mas pensamos que a Opas pode ajudar o país e outros países a encontrar melhores soluções para um problema específico.

2 – A proposta dos Laboratórios de Inovação foi bem recebida pelo Ministério da Saúde que vem apostando junto com a Opas na ampliação dos temas abordados?

Trabalhar com o conceito de Laboratório de Inovação é muito boa, rapidamente as pessoas entendem. Se tivemos algum mérito, com Renato Tasca que começou isso, com o Ministério e com o representante da Opas que apóia este novo caminho, foi o de pensar o Brasil como um grande laboratório e que temos que aproveitar coletivamente a sua potencialidade.

3 – Já tem laboratórios sobre condições crônicas, inovações na saúde suplementar, participação social em saúde. Qual o próximo tema que será abordado pelos Laboratórios de Inovações?

O Ministério da Saúde e a Opas estão analisando o edital de inovações na área de gestão do trabalho. Até o fim do ano, o MS lançará o prêmio para inovação neste tema e assim teremos um conteúdo muito rico para vários laboratórios na área do trabalho. O Ministério da Saúde é o grande consumidor dos produtos do conhecimento, que esse grande laboratório – o SUS – oferece. É uma companhia de inovações.

4 – Essa nova forma de fazer cooperação também é inovador para a Opas?

Os organismos internacionais estão passando por reformulações no processo de interlocução com outros países. Antes uma cooperação representava praticamente a doação de dinheiro e capacidade técnica. Mas muitos países especialmente da América Latina mostram que já não estão esperando esse tipo de apoio. Hoje os países, especialmente com recursos financeiros, eles mesmos estão encontrando suas próprias soluções para vencer os desafios. É uma nova reconfiguração do mundo e o Brasil tem uma atuação importante na Região das Américas, é um país que está claramente assumindo essa reconfiguração.

5 – Qual a previsão para o ano que vem?

Para o ano que vem queremos trabalhar com um tema que aborda o sistema de saúde centrado no paciente, porém o nome ainda não está definido. Mas a ideia é a de que os serviços de saúde devem estar voltados para as necessidades das pessoas, o conjunto do cidadão que tem problemas decorrentes de vários determinantes da saúde, como os das condições de trabalho, exposição à violência, riscos, hábitos de vida.Penso que se o serviço da uma resposta no momento em que a pessoas tem um problema de saúde ele é pouco útil, mas se o serviço de saúde antecede aos problemas, analisa o contexto do cidadão, abre muito o espectro de atuação. É uma forma mais integrada de pensar em saúde, quando o SUS oferece serviço de nutrição, academia da saúde, apoio a cessação de hábitos, já faz essa abordagem. Esse novo laboratório está muito motivado pelos diversos desenvolvimentos sobre condições crônicas que traz a tônica do que vamos fazer para evitar e prevenir doenças. É o Estado mais proativo para promover a saúde. Para isso nós estamos olhando também as experiências do Canadá e do Reino Unido. Essa proposta vem de encontro ao documento da OMS para 2014-2019 que trata sobrepeople-centeredhealthservices, algo assim como cuidados centrados nas populações e os avanços de vários países dos sistemas chamados patient-centered medical homes.

6 – A proposta dos LI também é trazer experiências externas. Quais temas são interessantes para o Brasil?

Na área de participação social, tivemos intercâmbio com países que fazem participação social através de mecanismos mais amplos, como a utilização da internet para monitoramento das ações do Estado, os chamados mecanismos de e-cidadania. É uma forma diferente da praticada no SUS, não é por meio de uma representação formal. Na área de uso de difusão de inovações, por exemplo, estamos fazendo intercâmbio com Reino Unido. Também no tema de regiões de saúde, estamos observando experiências do Canadá que tem sistema semelhante com o do Brasil, e observando a forma de se construir consórcios regionais. Também estamos trabalhando agora com o tema da gestão de carreiras da força de trabalho na área de saúde.

7 – Qual impacto que o SUS causou no senhor quando assumiu a gerência de sistema de saúde da Opas no Brasil, deixando o cargo de Assessor Regional na sede em Washington?

Penso que o Brasil tem uma grande vantagem que é a intenção política muito forte de levar o serviço de saúde a toda população, isso não é comum. Tem muitos países que não se propõem a isso. Ter um país com uma extensão muito grande, a maior população das Américas com sistema universal, apesar de toda a diversidade e disparidade intrínseca pelo tamanho e pela construção do país, essa é uma proposta política muito ousada. A primeira percepção que tive foi que as autoridades têm claro aonde querem chegar, o que querem fazer, mas fazer coisas ousadas e também em um espaço de tempo muito curto. Eu tenho a percepção de que ideia política e o impulso é tão grande que às vezes se perde a noção de que isso não será feito no tempo politico desejado. O SUS será construído em uma luta concomitante pela educação e pela democracia, pois requer mais participação social, mais equidade, mais cidadania. Países como a China pensam que as coisas vão mudar em 100 ou 200anos, no Brasil é difícil aceitar esse longo tempo. E as mudanças na área de saúde interatuam e dependem do avanço em outras áreas como a da infraestrutura urbana, de comunicação e educação. São plataformas que não podem ser ultrapassadas. A regionalização do serviço de saúde passa por aí, depende de muita logística e informação. A cultura brasileira é da ousadia, de querer uma coisa e nunca resignar-se.

Vanessa Borges
Portal da Inovação em Saúde (www.inovacaoemsaude.org)

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