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A LIGA DE PROMOÇÃO À SAÚDE DO ADOLESCENTE (LIPSA)

 A Liga de Promoção à Saúde do Adolescente (LIPSA) é um projeto de extensão criado em 2015, no curso de Enfermagem da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), instituição pública localizada na cidade de Sobral, Ceará. Trata-se de um movimento recente,  posto que até então as ligas que desenvolviam ações com adolescentes eram voltadas apenas a questões presentes nos ciclos de vida, como a saúde da criança e da mulher. A LIPSA ganhou destaque por ser um projeto com foco central na promoção da saúde do adolescente de forma holística e que utiliza como estratégias artefatos educativos e atividades didáticas a partir de metodologias ativas.

As Ligas Acadêmicas na UVA nasceram do protagonismo dos estudantes de enfermagem, instigados a buscarem novos conhecimentos durante a graduação. Nessa busca, foram observadas algumas lacunas no processo de formação decorrentes das especificidades dos serviços de saúde do município de Sobral e das demandas do público adolescente. As  vivências práticas do Módulo Puberdade e Adolescência viabilizaram a aproximação dos acadêmicos do grupo, então no quarto semestre do curso de enfermagem, dos adolescentes e jovens de comunidades da periferia de Sobral, por meio do desenvolvimento de ações de promoção à saúde realizadas de forma interativa e dialógica, de forma a contribuir com uma adolescência saudável e segura, e incrementar a formação acadêmica.

Este grupo de acadêmicos elaborou o projeto que estruturou a LIPSA, fundamentando-a nos três pilares universitários: o ensino, por meio dos alinhamentos teóricos, acerca da saúde do adolescente, que é desenvolvido na universidade, com o auxílio de profissionais que estudam e trabalham com a temática; a pesquisa, através da divulgação das ações da LIPSA na comunidade científica e a extensão, realizada nos territórios de vivências práticas.

Foi redigido o primeiro Estatuto da Liga, regulamentando os objetivos; a organização das reuniões, alinhamentos teóricos e extensão universitária e as atribuições das coordenações e dos ligantes. Depois disso, a LIPSA foi cadastrada na Pró-reitoria de Extensão da UVA, regulamentando de modo oficial as atividades do projeto, que hoje está em sua terceira edição. A universidade é um ambiente ideal para a produção de técnicas inovadoras e eficazes para promoção da saúde, além que reforça o compromisso social com a comunidade.

A LIPSA é constituída por um grupo de docentes e discentes, que não são fixos, pois variam entre as edições da Liga, os docentes por falta de disponibilidade para permanecerem no projeto e/ou desligamento da instituição proponente, e os discentes, devido os processos seletivos, para a entrada de novos membros. Destaca-se que a Liga não possui nenhum tipo de financiamento e seus próprios membros arcam com os custos das atividades realizadas.

A primeira coordenação docente da LIPSA foi composta por três professores da instituição proponente, sendo um professor responsável pela coordenação geral e coordenação de ensino, um coordenador de pesquisa e um coordenador de extensão. Ao longo das edições houve a mudança da nomenclatura coordenação para diretoria, sendo atualmente composta por dois docentes, um coordenador geral e um coordenador adjunto, e um profissional externo que presta apoio técnico à Liga. A coordenação discente é constituída por um grupo de acadêmicos que compõe a diretoria da LIPSA, são membros da segunda edição da Liga e que permaneceram no projeto, a fim de organizarem o processo seletivo e as demais atividades da Liga, juntamente com os ligantes da terceira edição. Além disso, alguns acadêmicos que deram início ao projeto continuam dando apoio às atividades eventualmente.

O processo de seleção para participação da LIPSA foi adotado como mecanismo para regulamentar e ampliar a participação dos acadêmicos, sendo um processo acessível, que abrange acadêmicos do primeiro ao oitavo semestre do curso de enfermagem e consiste em duas etapas. A primeira é eliminatória, mediante análise de uma carta de intenção, pela qual são avaliadas as intenções do acadêmico em participar da LIPSA. A segunda é classificatória, em que os candidatos apresentam um artefato educativo, com enfoque temático na saúde do adolescente, elaborado pelos acadêmicos e avaliado pela comissão de seleção, composta por professores da UVA e colaboradores da Liga.

As atividades da LIPSA ocorrem a partir de edições. A primeira foi de abril  de 2016 a novembro de 2017, com duração de um ano e dois meses; a segunda foi de novembro de 2017 a fevereiro de 2018, com duração de 6 meses e a terceira iniciou em fevereiro de 2018 e se encerrará em fevereiro de 2019, após um ano de duração. Destaca-se que cada edição teve seus marcos principais.

A primeira edição da LIPSA (2016-2017) contou com a participação de 16 membros, sendo 12 acadêmicos e 4 docentes. For firmadas parcerias com o projeto Flor do Mandacaru, que atua promovendo a saúde do adolescente com ênfase na saúde sexual e reprodutiva, principalmente nas escolas do município, a partir da utilização de jogos educativos. Também tivemos como parceiros nessa edição o Programa Saúde na Escola (PSE), que oportunizou a expansão das ações da Liga nas escolas, e sua inserção em atividades do município voltadas para o público adolescente, como a Semana Municipal do Adolescente e a Semana Municipal de Luta Contra a AIDS, ambas com um cronograma de ações descentralizadas no município. Essa parceria contribuiu para a divulgação da liga e fortalecimento da importância da integração ensino, serviço e comunidade. A LIPSA também teve a oportunidade de divulgar suas ações em um Centro de Saúde da Família (CSF) de Sobral, no intuito de realizar um processo formativo com profissionais de saúde que pretendiam criar um grupo de adolescentes no território e convidaram os ligantes para compartilharem suas experiências. Além disso, foi realizado o I Workshop sobre Suicídio, no formato de uma mesa redonda, com a participação de profissionais de saúde que discutiram a temática, sendo voltado para a comunidade acadêmica e para o público em geral.

Na segunda edição (2017-2018), participaram 16 acadêmicos e 5  docentes, totalizando 21 membros. Manteve-se a parceria com o PSE e com algumas escolas do município de Sobral, onde os ligantes continuaram a desenvolver ações de promoção a saúde em vários espaços em que os adolescentes estavam presentes. Além disso, foram organizados mais momentos para alinhamentos teóricos, a fim de capacitar os acadêmicos para o trabalho com os adolescentes. Nessa edição, foi realizado o II Workshoop sobre suicídio, contando com o apoio de alguns parceiros que possibilitaram uma organização do evento com mais qualidade. Novamente, foi realizada um mesa redonda que contou com a participação de 4 profissionais de saúde de diferentes pontos da Rede de Atenção à Saúde de Sobral: um assistente social do Centro de Atenção Psicossocial, uma enfermeira da Atenção Primária, uma psicóloga e um psiquiatra (ambos professores universitários e pesquisadores da temática).

Outro marco importante dessa edição, foi a criação do de um canal de vídeos, o LIPSA no YouTube. A ideia surgiu de uma estudante ainda na seleção dos membros da turma. O canal traz vídeos produzidos pelos ligantes abordando temáticas pertinentes ao universo dos adolescentes, por meio de demonstrações do uso de alguns artefatos educativos, e de entrevistas com profissionais e acadêmicos.

A terceira edição (2018-2019), possui 19 membros, 16 ligantes, 2  professoras e 1 enfermeira colaboradora. Nessa edição, a Liga teve como parceiros novamente as escolas, atuando principalmente na Escola de Ensino Fundamental Netinha Castelo, e também as Estações da Juventude, que são espaços de promoção da inclusão e protagonismo dos jovens, favorecendo o acesso deles às políticas públicas. Os ligantes se integram as atividades que já existem nestes espaços, como grupos de dança e práticas corporais, para desenvolver temáticas relativas à saúde que são de interesse dos adolescentes.

Na escola Netinha Castelo, a LIPSA atua na disciplina de Formação Humana, tendo colaborado com a construção da ementa no início do ano letivo. A Liga vem participando de vários momentos de planejamento e atuando em sala de aula, sempre utilizando os artefatos educativos da Liga.

Por fim, nessa última edição, está se pensando em uma reestruturação das atividades da liga, a partir da renovação de parcerias, idealização de um evento científico e cultural, voltado a acadêmicos, profissionais e adolescentes, além de mudanças no processo seletivo e formação na diretoria da Liga.

É importante ressaltar que a pesquisa também foi desenvolvida em todas as edições da LIPSA. Os acadêmicos têm levado a experiência da Liga para eventos locais e nacionais. Nesta terceira edição, está sendo sistematizando um livro com as experiências vivenciadas e a Liga começou a participar voluntariamente de um projeto de Iniciação Científica (IC) da UVA, que oferta bolsas de IC a alunos do ensino médio, tendo como enfoque temático o uso/abuso de drogas. Além disso, foi enviado um projeto, envolvendo as ações da liga, para edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNpQ).

Todas as atividades da Liga estão fundamentadas em uma concepção de educação socialmente contextualizada com a realidade de vida dos adolescentes, abordando temáticas diversas que emanam dos encontros com esses sujeitos nos mais diversos espaços de convivência. Tudo isso sob a perspectiva da valorização do processo de conscientização como possibilidade de empoderamento e superação de situações limitadoras do desenvolvimento dos sujeitos. Para tanto, o diálogo e o protagonismo juvenil são compreendidos e incorporados em todas as ações da LIPSA como ferramenta para fomentar esse desenvolvimento. Isso se dá desde o processo seletivo dos ligantes, com a criação de uma ferramenta educativa, até os trabalhos realizados diretamente com os adolescentes.

 

Mas afinal, o que são artefatos educativos da LIPSA?

Os artefatos educativos criados pelos ligantes da LIPSA são jogos e atividades fundamentadas em metodologias ativas. É uma estratégia que promove a inserção dos participantes como protagonistas no processo de ensino e aprendizagem, estimulando uma postura ativa na construção do saber. O facilitador não é o ator principal e sim um mediador do conhecimento. Esse método permite maior interação e exige comprometimento dos participantes.

Os principais jogos desenvolvidos utilizam tabuleiros, cartas, dados e placas. As atividades envolvem dramatizações, dinâmicas, palestras, workshops, rodas de conversa direcionadas a partir de roteiros de problematização, blitz informativas nas ruas e panfletagens.

As temáticas dos artefatos têm como base um dos sete temas estruturantes propostos pelas Diretrizes Nacionais para a Atenção Integral à Saúde de Adolescentes e Jovens na Promoção, Proteção e Recuperação da Saúde (BRASIL, 2010), a saber: Participação Juvenil, Equidade de Gêneros, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos, Projeto de Vida, Cultura de Paz, Ética e Cidadania, Igualdade Racial e Étnica.

 

Tabuleiro Alimentar

O artefato Tabuleiro Alimentar foi construído com base na literatura, foram levantados os valores calóricos de alimentos que normalmente estão inseridos na dieta de adolescentes, além de valores de gasto de calorias em diversos exercícios físicos que podem ser realizados pelos mesmos, quando praticados por um período de 30 minutos. O jogo é realizado da seguinte maneira: o jogador pega uma das cartas com os exercícios e compara a quantidade gasta de calorias com a casa seguinte do tabuleiro, se o exercício for superior a quantidade de calorias expressa na casa o jogador pula essa casa e passa para a casa seguinte e assim sucessivamente até que o jogador percorre o tabuleiro chegando à casa final.

 

Dominó dos Métodos Contraceptivos

O jogo “Dominó dos Métodos Contraceptivos” é uma ferramenta que propicia aos adolescentes conhecimento sobre os métodos contraceptivos existentes, interação entre o grupo, diálogo, conhecimento sobre seus direitos sexuais e reprodutivos. Através dessa atividade, objetiva-se promover a autonomia dos jovens na prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e de gravidez indesejada na adolescência, como também proporcionar uma interação entre o grupo e os facilitadores.

O jogo pode ser desenvolvido com adolescentes de 15 a 18 anos de idade. Tem capacidade mínima de dois participantes, e quando for um grupo maior é necessário a divisão em subgrupos para que haja execução do jogo.

O jogo tem duração mínima de 30 min. Para construção do jogo, é necessário somente folhas A2. O Dominó tem 28 peças e cada peça do dominó tem dois lados, em que um corresponde a uma pergunta e o outro corresponde a uma resposta. Nas peças há imagens ilustrativas para ajudar os adolescentes a conhecer os métodos contraceptivos.

Durante a aplicação desta ferramenta obteve-se um ótimo retorno dos participantes, pois muitos adolescentes não conheciam sobre diversos aspectos do assunto abordado e afirmaram que não prestavam atenção nas palestras realizadas pela escola porque as consideram “chatas”, e na metodologia de jogo de dominó eles puderam aprender de forma divertida, o que representou o alcance de um dos objetivos da atividade proposta.

 

Considerações Finais

A LIPSA, por meio da criação de artefatos educativos e da abordagem dinâmica de temáticas importantes para a promoção da saúde do público de adolescentes e jovens, conseguiu contribuir para o envolvimento ativo de jovens e adolescentes na construção de conhecimento em saúde, na reflexão sobre informações e no fortalecimento do protagonismo juvenil, ao possibilitar encontros e espaços para trocas de ideias e de valores. A Liga vem promovendo reflexões entre os adolescentes e a construção de novos saberes e novas formas de pensar e de agir.

Portanto, a atuação nas escolas e nos diversos espaços sociais, com novas metodologias, permeiam saberes relevantes para que os adolescentes possam fazer escolhas, se posicionarem e procurarem novas explicações, em fontes seguras, para tomarem decisões de forma consciente.

Os adolescentes têm a oportunidade de elucidar suas dúvidas e trazer novos questionamentos a serem amadurecidos pelos ligantes. Os diálogos gerados pelos artefatos educativos buscam impactar as ações de saúde e o autocuidado, contribuindo, ainda, com a formação dos ligantes enquanto profissionais comprometidos com as necessidades de saúde da população, especialmente do público adolescente.

Para os ligantes, a atuação na LIPSA permitiu a aproximação e o reconhecimento da realidade local, além do exercício profissional de ações de promoção da saúde, envolvendo o enfrentamento de desafios inerentes ao desenvolvimento de cada atividade, reconhecendo a importância de se buscar novas metodologias que envolvam de forma ativa os adolescentes.

Permitiu também o entendimento de que é imperativo fortalecer e aprimorar continuamente as ações de promoção da saúde para os adolescentes, visto que essa população necessita de acesso amplo a conhecimento e orientação, fato que poderá refletir positivamente nos indicadores de saúde e na qualidade de vida da população.

 

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