Três experiências da Atenção Primária à Saúde (APS) no combate à Covid-19 refletem a resiliência e o compromisso dos profissionais de saúde, da gestão e do Sistema Único de Saúde de assegurar o cuidado aos usuários, especialmente, em situações de crise sanitária. O debate virtual “A APS não pode parar! Formas de organização para continuidade do cuidado”, transmitido na sexta-feira (05/06), no Portal da Inovação na Gestão do SUS, mostrou que a APS é fundamental na resposta à pandemia.

“Experiências de países que fecharam a APS para colocar os profissionais de saúde nos hospitais de campanha, como a Itália e a Espanha, foram dramáticas porque causaram a interrupção do cuidado às pessoas com sintomas leves de Covid19 mas também àquelas que dependem cotidianamente da atenção primária”, ressaltou o coordenador da Unidade Técnica de Sistemas e Serviços de Saúde da OPAS no Brasil, Renato Tasca, na abertura do encontro.

As experiências participantes fazem parte da inciativa APS forte no combate à pandemia promovida pelo Ministério da Saúde e pela OPAS para compartilhar boas práticas, como comentou a analista técnica de políticas sociais da Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Larissa Ramos. “Essas experiências mostram que os territórios buscam suas respostas, soluções inovadores para este momento de pandemia”. Para participar basta inscrever a experiência desenvolvida no SUS no cadastro disponível em www.apsredes.org e seguir o edital. As inscrições foram prorrogadas até o dia 30 de junho.

A vice-presidente do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Cristiane Pantaleão, foi a debatedora do encontro. “É a Atenção Básica que resolve 85% dos problemas de saúde do país. E é ela que também vai resolver 85% dos problemas em relação à Covid-19. Ouvir essas experiências mostra que a gente tem profissionais da Atenção Básica excelentes nesse país e a gente pode acreditar que mesmo em meio à pandemia a gente dá conta de manter assistência e acesso à saúde para toda a população”, destacou Pantaleão.

Cuidados aos usuários do grupo de risco para Covid-19

Médica de família e comunidade Juliana Santos

“Os usuários com cardiopatia, diabetes e as pessoas acima de 60 anos são os casos de óbitos por Covid-19 no município e no mundo, são de maior risco de ter o desfecho negativo na infecção do novo coronavírus”, explicou a médica de família e comunidade Juliana Santos, da Gerência da APS da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. Até o dia 4 de junho, Belo Horizonte apresentava 2.144 casos confirmados de Covid-19 e 55 óbitos.

Para ofertar o cuidado a esses usuários durante a pandemia, a gestão municipal teve que realinhar internamente os macroprocessos do modelo de atenção e priorizar o atendimento dos casos mais complexos, visto que os usuários deixaram de procurar por atendimentos nos centros de saúde e nas Unidades de Pronto Atendimento (UPA) durante os meses de março e abril.

A primeira medida adotada pela secretaria foi a elaboração da listagem de usuários com condições crônicas mais complexas para distribuição a todas as Equipes de Saúde da Família. “Estratificou uma lista de usuários com alto risco cardiovascular a partir dos atendimentos realizados pelas equipes de 2019 a 2020, os que tinham diabetes mellitus com e sem insulinodependente, com complicações cardiovasculares e condições que poderiam indicar o uso de anticoagulação. A listagem foi entregue para as equipes para a construção dos planos de cuidados a esses indivíduos com maior risco”, explicou.

Também foram instituídos fluxos para atendimentos presenciais e por telemedicina. “Se o usuário da lista estiver dentro de um período de controle adequado é oferecido para ele o teleatendimento. No caso de o usuário não estar controlado ou estar há mais de três meses sem consulta, a equipe convida para uma consulta presencial”, explicou a médica. A auditoria clínica do prontuário foi uma ferramenta utilizada para avaliar o usuário, levando em conta outros atendimentos realizados na rede de saúde.

As equipes também puderam agregar, a esta listagem, os usuários acamados, egressos de hospitais e com uso de medicamentos controlados. Como resultado, a médica aponta que a metodologia padronizou o atendimento aos usuários com condições crônicas na APS e teve boa aceitação da equipe. Outro ganho para a gestão municipal foi a inscrição de mais de 300 médicos no e-gestor para uso do Consultório Virtual de Saúde da Família, um projeto de teleatendimento oferecido pelo Ministério da Saúde, segundo a médica Juliana Santos.

Estratégias individual, familiar e comunitária

Médico de família e comunidade Márcio Silva

Os profissionais de saúde da Clínica da Família Ana Maria Conceição dos Santos Correia, localizada na zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, tiveram que reorganizar a rotina de trabalho para atender e monitorar os usuários com síndrome gripal durante a pandemia. A unidade tem como característica receber estudantes de enfermagem e medicina que acompanham a rotina das seis equipes de Saúde da Família e das duas equipes de Saúde Bucal.

A nova dinâmica na Clínica da Família começou quando foram registrados os primeiros casos de Covid-19 no município. A equipe se mobilizou para discutir os protocolos e reorganizar o fluxo na unidade, visando a atender os usuários com caso de síndrome gripal e os usuários com condições de saúde emergenciais. “Colocamos um profissional na parte externa da unidade para direcionar o encaminhamento dos usuários sintomáticos respiratórios, que ia direto para uma sala de isolamento, onde um profissional faz o acolhimento com toda a segurança”, conta o médico de família e comunidade Marcio Silva.

Os usuários suspeitos de Covid-19 foram cadastrados em uma planilha que permitiu localizá-los no mapa do bairro. “Quem tinha síndrome gripal era notificado, e a gente fazia uma planilha de telemonitoramento por um grupo de profissionais fazendo o contato por telefone. Se a pessoa piorava, a gente incluía na rota de visita domiciliar ou destinava a pessoa para uma UPA”.

Outra meta dos profissionais de saúde foi a realização dos atendimentos das linhas de cuidado como os casos de pré-natal, puerpério e crianças menores de um ano, realização do teste do pezinho e conferência do calendário vacinal. “A estratégia de visita domiciliar foi importante em relação à gestão da lista de gestantes e de puericultura, pessoas com condições crônicas e alguns casos sintomáticos e pessoas em sofrimento psíquico grave”, elencou Silva.

A ferramenta tecnológica utilizada pela equipe, como o Google Maps, possibilitou que os profissionais de saúde tivessem o georreferenciamento do casos na comunidade para elaborar estratégias de mobilização. “A gente se articulou com os dispositivos do território, gravamos vídeos, elaboramos materiais informativos sobre contraceptivos para redes sociais. Além disso, arrecadamos alimentos e distribuímos mais 280 cestas básicas para famílias”, ressaltou o médico.

Para o médico, uma APS Forte no combate à pandemia passa pela atuação permanente dos profissionais, atendimento e monitoramento dos sintomáticos respiratórios, criação de fluxos de acolhimento e reavaliação do número de casos. “Uma APS Forte precisa desse tripé na abordagem individual, familiar e comunitária apesar dos desafios sem precedentes desta pandemia”, refletiu.

 

Acesso seguro para profissionais e usuários

Médico de família e comunidade Waldemir Costa

Ceilândia é a cidade administrativa do Distrito Federal com maior número de óbitos (44) e casos (1.666) de Covid-19 registrados até 5 de junho. A Unidade Básica de Saúde n.10 de Ceilândia está localizada no centro da cidade, próximo ao Metrô e de agências bancárias, com intenso movimento de usuários. “Logo no início da transmissão, a nossa UBS já estava sendo visada como algo de grande contaminação pelo grande fluxo de pacientes”, conta o médico de família e comunidade Waldemir Costa.

“Em março, um grupo de médicos residentes, junto com a equipe da UBS, decidiu mudar a forma de acesso à UBS para garantir a segurança dos profissionais e dos usuários”, diz Waldemir Costa. Com a mobilização dos profissionais, a disposição dos consultórios na unidade foi reformulada, assim como a escala de trabalho da equipe para acolher o serviço de atendimento aos usuários suspeitos de Covid-19, com espaço de circulação exclusivo na UBS.

Os profissionais de saúde se dividiram para recepcionar o usuário com sintomas de síndrome gripal logo na entrada da UBS, reservaram uma sala de atendimento e criaram um grupo de suporte para acompanhar os desdobramentos da consulta. “Na sala de isolamento, fica um médico, que usa máscara, avental, touca, luva, protetor de acrílico. A sala tem computador com acesso ao prontuário eletrônico e impressora, além de medicamentos básicos e oxímetro. Colocamos uma escala da enfermagem para ficar volante na unidade e dar suporte ao atendimento médico”.

Com a evolução da pandemia na cidade, a demanda na unidade aumentou, levando a UBS ao limite. “Em Ceilândia, temos equipes sem médicos e áreas sem cobertura APS e a pior taxa de isolamento social do Distrito Federal, entre 30%. Com tudo isso, a demanda pelo serviço aumentou absurdamente. Desde meados de maio, percebemos o adoecimento geral da UBS. Quando a gente fala de colapso do sistema de saúde, a APS também começa a chegar no seu limite. A situação é dinâmica, quando a pandemia avança as dificuldades ficam mais evidentes”, reflete o médico.

 

Assista à integra do debate:

 

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