Andradas é um município situado no sul de Minas Gerais/MG, microrregião de Poços de Caldas, com população estimada é de 40.000 habitantes, na fronteira com o estado de São Paulo. Essa localização geográfica coloca-nos entre cidades que convivem diariamente com grandes surtos de doenças transmitidas por vetores, principalmente a dengue e a febre amarela. O município sofreu com epidemias de dengue em 2015, com o vetor, o hospedeiro e os vírus circulando por toda a vizinhança. Consequentemente, todos os equipamentos de saúde acabaram trabalhando em função da dengue, e o sentimento de incapacidade de resolução do problema foi imenso. Entendeu-se, então, a necessidade de trabalhar com foco na prevenção para evitar as consequências onerosas, em todos os sentidos, de uma epidemia.

Nesse contexto, nasceram as parcerias intersetoriais entre Secretarias da prefeitura de Andradas, sendo liderada pelos profissionais da Vigilância em Saúde/Vigilância Ambiental e educadores. Com a colaboração da rede de educação municipal, estadual e particular, implantou-se projetos pedagógicos voltados para o combate do mosquito Aedes aegypti, focando na promoção da saúde e prevenção de doenças e tendo como público alvo crianças e adolescentes.

Em 2017, com  um índice de infestação ainda preocupante e o risco iminente da febre amarela urbana ganhar espaço, intensificou-se as ações de combate ao mosquito e sentiu-se a necessidade de trabalhar a mudança de postura/cultura a partir das crianças e adolescentes, nascendo assim o projeto“Agentes Mirins de Combate ao Aedes aegypti – Sou responsável pelo ambiente em que vivo”.

O primeiro trabalho desenvolveu-se em 2017, com 40 alunos do 5º ano, da escola municipal Paulo Drummond de Andrade. Após avaliação e monitoramento, em 2018 o projeto foi ampliado, com a participação de aproximadamente 150 adolescentes que cursavam o 5º e o 6º ano, de duas escolas estaduais e duas escolas municipais.

Com a parceria dos profissionais da Educação, foi revisto aspectos metodológicos, particularmente as capacitações, que passaram de um trabalho mais informativo para atividades lúdicas e práticas pedagógicas que despertassem nos adolescentes a responsabilidade cidadã no combate ao Aedes aegypti. Isso incluiu aulas teóricas e práticas, debates, teatros, envolvimento dos pais no trabalho, entre outras. Para o ano de 2018, foram definidos os seguintes passos a serem seguidos:

1ª Fase:  Mobilização de todos os alunos

A Vigilância Ambiental mobiliza todos os alunos por meio de atividades que despertem para o compromisso de combate ao mosquito. Na sequência, os alunos são convidados para atuarem como Agente Mirim de Combate ao Aedes, assumindo a responsabilidade e as obrigações de um agente mirim no combate ao mosquito transmissor de doenças (somente os alunos do 5º e 6º ano).

2ª Fase:

Os alunos interessados em participar do programa preenchem a Ficha Cadastro (não obrigatório) para atuarem como Agentes Mirins de combate ao Aedes. Os pais ou responsáveis devem assinar também o termo de autorização, através de uma ficha própria.

3ª  Fase:

  1. Oficina de capacitação dos Agentes Mirins para que conheçam o processo evolutivo e de desenvolvimento do mosquito Aedes aegypti (microscópio) e os lugares mais frequentes de procriação;
  2. Vistoria nos imóveis, em escola e ambientes familiares. Acompanhados dos profissionais agentes de endemias, os agentes mirins colocam em prática o que foi aprendido. São capacitados para detectarem, em campo, como é feita a vistoria, a identificação de possíveis criadouros e a eliminação dos focos.

4ª Fase – Graduação dos Agentes Mirins

  • Os alunos, depois de capacitados, são graduados. Cada um recebe o certificado de Agente Mirim e uma carteirinha que os tornam responsáveis por cuidar do ambiente em que circulam e convivem. São fiscais para que não se desenvolva nenhum foco de procriação do mosquito;
  • Uma identificação é colocada na casa do agente mirim para informar que ali mora um agente e motivar a comunidade a participar da ação de vigilância;
  • Cada aluno se torna responsável pela fiscalização de sua casa e busca orientar os pais, responsáveis, familiares e amigos.

5ª Fase: Acompanhamento da prática.

Semanalmente, os agentes mirins têm em mãos um checklist para fiscalizar o ambiente em que vivem. Todos os resultados são acompanhados pela escola, Estratégia Saúde da Família do bairro e, quando necessário, pelos Agentes de Endemias.

 

As ações realizadas pelos adolescentes são trazidas para a sala de aula como temas transversais e como oportunidade de incorporar esses temas na prática educativa cotidiana, além de estimular os participantes a encontrarem, juntos, soluções para as dificuldades enfrentadas.

Por meio dos desdobramentos das ações que contemplam esse projeto, os agentes mirins atingem a instituição em que estudam, as suas famílias e a comunidade, validando o aprendizado de sala de aula, disseminando na comunidade o estudo científico do problema, buscando e apresentando hipóteses e soluções para implementar medidas de prevenção contra o mosquito transmissor.

Com o apoio e dedicação dos professores, e o empenho dos alunos e de toda equipe escolar, a experiência dos Agentes Mirins mostrou que a parceria saúde e educação pode alcançar grande êxito. A criação de um ambiente de educação para a cidadania estimula o desenvolvimento humano social e a autoestima dos educandos, orientando-os para a construção de uma visão crítica e social da realidade na qual estão inseridos. Contribui para uma mudança cultural, na qual cada um e todos são responsáveis pelo ambiente em que vive.

Nesse sentido, os adolescentes se tornam protagonistas na promoção à saúde do seu território. São sujeitos do seu próprio processo de aprendizado, consolidando e construindo o que aprendem por meio de práticas e vivências inseridas na comunidade em que vivem.

 

“Eu gostei muito de fazer as visitas e também quando os agentes nos levaram para mostrar como é o trabalho deles na prática. É muito importante eliminar os focos de mosquitos para mantê-los longe da minha casa e da casa dos vizinhos, porque esse mosquito pode transmitir doenças que podem levar a morte.”

Giullia Lopes Camargo

Aluna do 5º ano –E.M Paulo A. Drumond de Souza

 

“É gratificante ver que todo o esforço depositado na etapa teórica se transformou em empenho e dedicação no momento das visitas. A vontade com que realizam as vistorias nos faz acreditar que em um futuro próximo não nos preocuparemos tanto em eliminar focos e depósitos, pois sabemos que cada adolescente que fez parte do projeto levará essa iniciativa adiante.

Maybi Pinto Silva Chiodetto de Oliveira

Enfª Estratégia de Saúde da Família- Mantiqueira

 

“O projeto Agente Mirim, que foi implantado em nossa escola, foi de grande valia para trabalhar a conscientização, preservação e limpeza do ambiente que nos cerca. Os nossos alunos ficaram muito animados com o projeto onde eles puderam fazer as visitas nas vizinhanças da escola acompanhados de agentes profissionais e aprender como deve ser o cuidado com o ambiente em que vive para a eliminação e controle Aedes Aegypti.”

Patrícia Maria Lopes de Pontes

Diretora E.M Paulo A. Drumond de Souza

 

“Nossos esforços são para a prevenção. Sabemos que a conscientização da população é sempre a medida mais eficaz na eliminação dos criadouros e garantia da saúde da população. O êxito da experiência se fundamenta numa parceria com a área da educação. Fiquei profundamente tocado pelo comprometimento dos professores e dos adolescentes envolvidos; da alegria que cada um expressa por estar fazendo parte do projeto.  “

Aldo Fernandes

Supervisor da Seção de Vigilância em Saúde Ambiental

 

Autores

Aparecida de Fátima Silva de Carvalho – Gerente Vigilância em Saúde

Aldo Fernandes – Supervisor Vigilância Ambiental

Daniele Cazarotto Delavia – Enfermeiro

 

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