Universidade inova no cuidado integral em saúde das trabalhadoras do sexo na periferia de Fortaleza

Reunião na sede do Nuced/UFC

As trabalhadoras do sexo da Barra do Ceará, bairro de Fortaleza, recebem orientação sobre promoção da saúde e redução de danos de estudantes e psicólogos do Núcleo de Estudos sobre Drogas (Nuced), da Universidade Federal do Ceará, por meio de uma disciplina curricular que articula instituições e fomenta novas abordagens de cuidado na comunidade. A experiência recebeu a visita de integrantes da comissão organizadora do Laboratório de Inovações sobre a Participação Social na Atenção Integral à Saúde das Mulheres  no dia 30 de junho, que conheceram a dinâmica do projeto Práticas de Cuidado em Saúde com Trabalhadoras do Sexo: Extensão Universitária Desenvolvida pelo Nuced/Universidade Federal do Ceará (UFC), uma das seis práticas selecionadas pela Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) e pelo Conselho Nacional de Saúde.

O projeto visa potencializar as ações de saúde no território, integrando as atividades já realizadas por instituições do município, como o Instituto de Cultura, Arte, Ciência e Esporte – CUCA e o Posto de Saúde Lineu Jucá, e ampliar o cuidado em saúde às profissionais do sexo. A busca ativa dessas mulheres e as dinâmicas em grupo contam com a parceria dos educadores sociais do Cuca e dos Agentes Comunitários de Saúde, também moradores da comunidade. “Inicialmente a gente encontrava c

Visita aos bares da Barra do Ceará

om essas mulheres para levar camisinha, falar da importância da lubrificação no ato sexual, facilitar o acesso às consultas ginecológicas e promover ações de testagem rápida de HIV. Com o amadurecimento do projeto, percebemos que precisávamos ir além, ouvi-las e conversar mais sobre as necessidades delas, realizar um processo de inserção e vinculação das equipes com essas usuárias”, relata Lorena Nessin, psicóloga e doutoranda vinculada ao Nuced.

“Com a vinda da Universidade a gente consegue fazer uma reflexão em grupo, trabalhar o processo das equipes no território, trabalhar com a estratégia de redução de danos, ninguém chega ali para dizer que a prostituição é errada, mas para trabalhar com o risco que envolve essa mulher, como a violência. Quando as instituições conseguem se aproximar, a gente chega com mais força na comunidade e chega para ouvir as demandas da comunidade, ouvir as pessoas, sem medo, sem tabus. A vinda da Universidade é importante porque a gente consegue potencializar os serviços e dá o que é de direito da comunidade”, explica Cleilton Oliveira, educador social do Cuca.

Psicólogos do Nuced, Ricardo Méllo e Lorena Nessin, com a conselheira Heliana Santos, o educador social do CUCA, Cleilton Oliveira, e a aluna de psicologia Juliana

Professora Carolina dos Reis, psicóloga do Nuced

Para Carolina dos Reis, responsável pela disciplina Práticas II implantada pelo psicólogo Ricardo Méllo que coordena o Nuced/UFC, o projeto possibilita uma formação holística dos estudantes, considerando os determinantes sociais em saúde. “É uma ação que de fato a universidade extrapola os seus muros. E para os estudantes é uma ação muito singular, de poder acessar outro contexto, de poder fazer uma outra psicologia que é uma psicologia comprometida com a população, com a vulnerabilidade social, e isso já é inovador para o curso e para a Universidade”, ressalta Carolina dos Reis. “A forma que a gente se aproxima das mulheres também é inovador. Como, em geral, os trabalhos realizados com as profissionais de sexo se concentram no cuidado da relação sexual, o projeto traz uma outra discussão de cuidado em saúde que olha para essa mulher como sujeito integral e daí a gente começa a oferecer outras ações, visando o empoderamento delas como cidadã”, conta.

“Com o projeto temos mais acesso à saúde”, diz Raquel, prostituta na Barra do Ceará

“Antes do projeto, as trabalhadoras do sexo não buscavam o posto de saúde. Agora a gente percebe que algumas delas já conseguem ir diretamente ao posto e esperar para ser atendida, reconhecendo elas podem participar deste espaço”, diz Lorena Nessin. A percepção da pesquisadora é confirmada pela profissional do sexo conhecida como Raquel (nome de profissão), 36 anos, que trabalha em um prostíbulo na Barra do Ceará. Ela conta que melhorou o atendimento no Posto de Saúde Lineu Jucá e que o contato com a equipe da Universidade possibilitou o acesso a outros serviços, porém quando precisa de um atendimento de maior complexidade fora do território as barreiras permanecem.

“No posto que costumo ir não sofro preconceito, tenho até uma certa prioridade. Com o apoio das psicólogas, nós recebemos um acolhimento diferenciado, eles vem até nós, conversamos, fazemos testagem de sífilis, HIV, tudo isso aqui na casa, isso facilita bastante. Com o passar do tempo, a gente vai aprendendo a lidar com a situação, com o medo de romper o preservativo, com a violência, de ser machucada. Eu lamento que a Lei Maria da Penha não sirva pra gente, mesmo tendo clientes fixos”, diz Raquel. “Hoje eu me sinto mais segura em me afirmar como profissional do sexo e não escondo, eu não sou puta ou rapariga, sou prostituta. O recado que dou para mulheres que estão começando na profissão é de usar sempre o preservativo, saber observar as pessoas e que o dinheiro não está acima da sua saúde”, aponta Raquel.

Para Lorena Nessin, participar do Laboratório de Inovação permitiu analisar o projeto ressaltando o que é inovador. “Eu trabalho com prostituição desde 2010 e percebo que o inovador neste projeto é a tentativa de se deslocar o olhar da prevenção em saúde na prostituição para o da promoção da saúde dessas mulheres. Outra inovação é a metodologia que utilizamos, ela tenta ser menos acadêmica e mais próxima da comunidade, com uma linguagem menos dura para falar sobre o cuidado em saúde. A nossa inserção no território visa também articular ações de duas politicas públicas, saúde e cultura”, explica Lorena Nessin.

 

Por Vanessa Borges, para o Portal da Inovação na Gestão do SUS

Fotos – Vanessa Borges

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